A poupança

29/01/2010

O operário parece reunir coragem, olhando, sem ver, a marmita de alumínio que se encontra destampada no colo. — “Hoje ou amanhã? — questiona-se. Está com medo — e não é para menos —, mas sabe que terá coragem de fazer o que considera necessário. Na verdade não o é, mas ele pensa o contrário, e quem consegue enfiar juízo na cabeça de um homem? Hesita apenas quanto ao momento de agir. Mas se deixar para amanhã, a tensão será a mesma ou maior. Quanto mais depressa resolver esse problema, melhor.


Neste exato momento, acha-se sentado no chão da fábrica, pernas estendidas, costas apoiadas na parede. É hora do almoço e, à sua volta, cerca de quinze colegas comem, com variado grau de apetite, o almoço que trouxeram de casa. O operário mais próximo, o “Canhoto” — com quem antipatiza, por considerar um mau caráter — está, neste exato momento mordendo, com exibicionismo, um peito de frango grelhado. Dos presentes, é o que sempre come melhor.

E freqüentemente se dá ao luxo de almoçar na lanchonete da esquina, sem preocupação com economia, às vezes até pagando a despesa de algum colega. O que está acontecendo com ele? Matou alguma tia rica e solteira.?
A visão do frango grelhado aguça involuntariamente o apetite do trabalhador de olhar sombrio, que passa a examinar gulosamente o ovo frito montado no arroz, que trouxe de casa. A sobremesa será uma banana. Não compreende como possa sentir fome num momento tão sério como este... Pelo jeito, corpo e alma nele vivem separados.

E seu corpo tem fome.

Teme, porém, vomitar, se após o almoço fizer o que pretende. Mas, se agir primeiro, permanecerá com fome, pois não conseguirá comer depois.
Enquanto hesita, põe a marmita de lado e confere seu “extrato bancário”; que não é feito de papel, mas de carne, ossos e unhas: sua mão esquerda, um membro grande, moreno, ossudo. Uma mão quase como as demais, de homem alto. Difere anatomicamente da normalidade pela falta de duas falangetas. E também difere em seu significado porque ela é sua peculiar “caderneta de poupança”.

Explico: nosso homem, quando em dificuldade, corta “involuntariamente” na serra elétrica ou esmaga na prensa veloz um pedaço de dedo, recebendo a indenização acidentária.

A primeira “aplicação”, lembra-se, foi uma falangeta que serviu para pagar aluguéis atrasados, evitando o despejo. A segunda — pasmem, mas com cautela, porque o consumismo inventa coisas do arco da velha — para comprar uma televisão em cores; pressão das duas filhas, já mocinhas, que alegavam passar muito tempo na rua porque não havia televisão “que prestasse” em casa. E elas nunca souberam do sacrifício, nem diminuíram muito as horas fora da vigilância dos pais.

A idéia de obter recursos “aplicando” pequenas frações de sua anatomia surgira por acaso, quando de um acidente — verdadeiro, involuntário — sofrido por um colega. Este, no fim do horário de trabalho, distraído, não afastara a tempo a mão. Apenas levara um susto quando a prensa baixara, com força e velocidade. Retirando a mão de imediato, esse colega chegara a dizer: “Puxa! Quase pegou minha mão! Senti até uma cosquinha!” Mal disse isso viu seus três dedos bem amassadinhos na placa de aço. Aí, quase desmaiara. Não de dor, mas de susto. A dor viera depois.

Por se tratar de um típico acidente de trabalho, a indenização fora paga imediatamente, sem discussões. Houvera ainda, no caso desse colega, um período de afastamento do trabalho, remunerado. Quando o acidentado retornara ao trabalho, um bom tempo depois, estava mais gordo, bronzeado porque, com o dinheiro da indenização, comprara uma lambreta usada, o que lhe permitia passear e escapar dos ônibus superlotados. Vendo-o partir de lambreta, nosso homem, que agora hesita, ficara refletindo. Um ano depois, na iminência do despejo por falta de pagamento, sacrificara a primeira falangeta. Foi um ato de desespero, certo, mas precedido de alguns cálculos. E de tanto calcular, tornara-se quase um especialista em matéria de indenização por perda de membros. Uma espécie de gerente de banco, que conhece, na palma da mão, digo, nos cotos dos dedos, o rendimento de seus “papéis”.

O homem que neste momento se domina para não almoçar — quer perder alguns dedos, não a vida, com uma possível congestão — ganha mal, mas não tão mal assim. Recebe quatro salários mínimos brasileiros, o que lhe permite uma subsistência cautelosa, mas não impossível. Razoável, por isso, pergunte o leitor qual o terrível drama que o empurra para tão macabro investimento.

A explicação é simples. Nosso homem sofre do “coração”. Se fosse mulher berbere, no Marrocos — segundo um livro de curiosidades — e estivesse apaixonada, diria que seu “fígado” tinha sido “roubado”. Enfim, ele está amando. Sabe-se ridículo, apaixonado nessa idade, dominado por sensações de adolescente mórbido do século passado. Mas a consciência desse ridículo não o alivia nem um pouco. Está de tal modo caído por uma mocinha de nome Helena, que quando não a pode ver sente uma espécie de garra — igual a um enfarte — apertando seu coração. A todo momento, pensa nela. 

Por duas vezes, distraído, com dolorosa saudade, quase perdeu a mão em acidente verdadeiro na mesma agência bancária, digo, prensa, onde agora vai sacar o dinheiro. Está casado há quinze anos, tem sido um marido oitenta por cento fiel, mas ao contrário de seus colegas de fraqueza, cada vez que “pula a cerca” se apaixona como um adolescente romântico.

Helena é uma mocinha bonita e decidida, que gosta de pôr “os pingos nos is”. Aliás, ela usa e abusa dessa expressão. Desde que começou seu “caso” com nosso “investidor” — na opinião dela, um “coroa” bonitão — vem sofrendo uma terrível guerra psicológica, auditiva e até mesmo braçal dentro de casa. Sua mãe mantém uma vigilância constante e desagradável contra esse namoro com um homem casado. Ameaçou-a de expulsão, caso não parasse com aquilo. — Ele é um ano mais velho do que eu! — berra-lhe o pai, junto ao ouvido, como se ela fosse surda. Parece-lhe até que esse detalhe é o que mais o incomoda. E se ela for expulsa, para onde irá?

Helena precisa urgentemente sair de casa. Mas morar onde? Na casa dele, juntamente com sua mulher? Não chegaria viva até a cozinha. Sua esposa é uma senhora vigorosa, volumosa, alerta, honesta, mas capaz de extremos de violência. Certa vez, saíra no tapa com um cobrador que pretendia iludi-la no troco. É muito mais enérgica do que o marido, um sonhador. Este sempre reconhecera o valor da mulher, sendo-lhe grato por muitas coisas. E tem-lhe medo, muito medo, devido à retidão dela, não obstante seja um homem que não teme outros homens. Mas a força da nova paixão supera qualquer outro sentimento.

Com o sacrifício que fará daí a instantes, poderá montar casa para a Helena. Ela deixara claro que gostava muito dele, não obstante a diferença de idade, mas que não agüentava mais o ambiente de perseguição dentro de casa. Ameaçava fugir para outra cidade, em outro Estado, sem deixar endereço. E bonitinha como ela só, ele pensou, logo arranjaria outro homem. Assim, como arranjar dinheiro urgente, de modo a mantê-la na cidade?

Nosso angustiado, vez por outra, via em jornais — lia bastante nos fins de semana — que determinado homem matara a amante, ou esposa, e depois se suicidara. Nessas ocasiões, quando seus colegas ou familiares censuravam, até com gracejos, tão louco sacrifício pelo amor de uma mulher, nosso homem respondia apenas com o silêncio. Conhecia-se. Sabia que, um dia, poderia chegar a tanto. E se teria coragem para deitar-se todinho em baixo de uma prensa, por que não deixar ali apenas alguns dedos, muito menos que uma vida? Lendo, dias atrás, a expressão “Vão-se os anéis, fiquem os dedos”, ele intimamente adaptara o conselho para “Vão-se os dedos, fique Helena!”.

Não! Não tinha mais dúvidas. Para reforçar a decisão, tomar coragem, era só lembrar o rosto dela, sempre presente na sua alma. Mesmo que levasse um fora após um ano, dar-se-ia por recompensado. Aquilo já não era um caso de amor, mas uma doença contagiosa, da qual só se livraria “comendo” a vacina.

O horário de descanso estava se esgotando. “Afinal, almoço ou não?”, ele se perguntou. Se comesse, o acidente pareceria mais natural, pois ninguém pode imaginar que uma pessoa vá almoçar prosaicamente, sabendo que logo em seguida perderá os dedos. Comeu rapidamente, procurando não pensar e, quando se dispunha a ir até o bebedouro, a campainha da fábrica tocou. Tinha que ser agora! Desistiu da água e aproximou-se da prensa onde trabalhava.

Olhou em volta e percebeu que “Canhoto”, do outro lado da máquina, o olhava disfarçadamente. Desviou a vista, mas quando olhou outra vez na direção do colega, este novamente o observava. — “O que quer esse ladrão e bajulador?” — perguntou-se. Teria adivinhado sua intenção?
Lembrou-se, então, que tendo sofrido já duas lesões na mesma mão, não sendo canhoto — não deformaria sua mão direita, de jeito nenhum —, não seria melhor caprichar na aparência de um acidente verdadeiro? Que tal forjar um “escorregão” bem bacana para justificar o novo acidente?
Com forçada naturalidade, deu alguns passos em direção da lata de graxa que ficava ao lado da prensa e, com os dedos da mão direita, pegou uma boa quantidade da substância. Retornou para seu lugar e, fingindo amarrar o sapato, agachou-se, saindo do campo de visão do “Canhoto”. Agachado, besuntou a sola de seu sapato. Em seguida, limpou a mão em um pano sujo e pegou a peça que iria ser trabalhada, colocando-a no ponto certo para ser amassada, juntamente com as partes de sua pessoa que iriam financiar um ninho de amor. Ele conhecia exatamente a área da chapa a ser atingida pela máquina. Preservaria o polegar, o indicador, e o dedo médio. O resto podia virar bife com osso.

Para que não houvesse dúvidas, depois, quanto ao escorregão que explicaria o acidente, o operário apertou o botão da prensa enquanto deslizava para trás, de um golpe, o pé esquerdo. Ocorre que o escorregão foi tão convincente, que se transformou involuntariamente num escorregão verdadeiro. Com isso, a mão esquerda avançou muito além do intencionado. E foi inteiramente esmagada.

Não houve dor imediata. Apenas um choque, seguido da sensação de horror, porque de forma alguma queria aquilo. Sentiu um calafrio quando viu o sangue esguichar do coto sangrento. Gritou, mas o som foi abafado pelo ruído infernal daquela parte da fábrica. Tentou correr, para pedir auxílio e estancar a hemorragia, mas escorreu de verdade e caiu, batendo a testa na quina de uma caixa de metal. Ficou alguns segundos minutos desacordado e, quando acordou, estava sendo socorrido por dois funcionários que trabalham no escritório e nunca transitavam pela área de produção. Não fosse a presença aparentemente casual desses funcionários, que lhe aplicaram um torniquete no pulso, teria morrido com a grande perda de sangue.
Foi levado ao pronto socorro e dali para um hospital.

Alguns dias depois, já fora de perigo, mas sentindo ainda a “dor fantasma” na mão ausente, encontrava-se em casa, fazendo contas com a maquininha de calcular — presente da esposa. Refazia os cálculos porque a indenização agora seria muito maior. Provavelmente seria aposentado por invalidez.
Sua esposa parecia-lhe um tanto indiferente, como se carregasse no íntimo algum rancor. Mas poderia ser simples tristeza ou consciência pesada dele mesmo. Afinal, fizera uma grande burrada.

A empresa onde trabalhava estava demorando para se pronunciar sobre a indenização. Alguma coisa não estaria bem?

Vinte dias depois do acidente, alguém bateu palmas junto à sua porta. A mulher foi atender. Era um advogado da empresa, homem bem vestido, jeito educado, com pouco mais de cinqüenta anos. O operário se animou, pensando: “Ôba! Ele veio trazer o cheque pessoalmente!”. Mas estranhou o fato de ser procurado em casa pelo profissional. Em vezes anteriores, não fora tão homenageado.

Após os cumprimentos de praxe, o advogado pigarreou e perguntou à mulher do acidentado se poderia falar a sós com seu marido.

A mulher pareceu surpresa e ofendida com a solicitação:

— Não há necessidade, doutor. Aqui em casa não temos segredos.
O advogado hesitou, constrangido, mas logo insistiu: — Minha senhora, não há o que temer. Nesses assuntos — mentiu — é exigência da firma que a conversa seja apenas entre o empregado e o representante da firma. Não leve a mal.

— Por que não posso ouvir? — discordou a mulher, com as mãos na cintura, erguendo as sobrancelhas. Era de sua natureza brigar, discutir, nada entregar de modo fácil. Seria uma grande líder em outro meio, se interessada em política.

— Porque tem que ser assim! — teimou o advogado, já aborrecido com a insistência. — Se a senhora não aceita as normas da empresa, muito bem!, eu volto agora mesmo para meu escritório e seu marido que vá tratar de seus interesses no departamento do pessoal.

Vendo que a mulher ainda assim hesitava, fez menção de se
levantar para ir embora.

— Está bem... — ela concordou, de má-vontade. — Vou até a padaria... Podem conversar à vontade... — E saiu da sala, batendo a porta com um pouco mais de energia do que necessário.

O advogado voltou a sentar-se e encarou o operário como se o estudasse, em total silêncio.

— Então? — perguntou o maneta, algo inquieto.
Novamente o advogado pigarreou. Procurando deixar o interlocutor à vontade, observou de maneira simpática, com um meio sorriso nos olhos:

— Está se sentindo melhor?

— Ah, já... Mas ainda dói muito. A gente tem a impressão de que é a mão que está doendo. O médico me explicou isso, a “dor fantasma”...
De repente sério, o advogado, fitando o operário bem nos olhos perguntou:

— Por que você fez isso?

O coração do operário imediatamente acelerou suas batidas. Cauteloso, respondeu:

— Isso o quê?

O advogado sorriu, compreensivo. Sentia uma certa simpatia pelo homem a sua frente. — Vou ser franco com o senhor... Pessoalmente, se dependesse só de mim, até apressaria o pagamento da sua indenização. Mas lamento dizer que há uma outra questão em jogo e que torna isso impossível.

O operário retesou-se, inquieto, no velho sofá, sentindo a ameaça no ar. Mas precisava reagir:

— Impossível?! O que é impossível?

— O pagamento da indenização.

— Diabo! E por que não? Isso não vale nada? — perguntou, erguendo o toco, quase encostando-o no nariz do advogado. — Que “maracutaia” é essa? Quem paga é o INSS, não a firma!

O advogado não se abalou:

— Você sabe muito bem por que não pode ser indenizado...

— Não sei, não! — não ia ser agora, aleijado, que se entregaria facilmente.

— Olha... — o advogado procurava ser o mais didático e sem censura possível. — Quando você fazia toda aquela encenação, estava sendo filmado. A câmera registrou tudo: você pegando a graxa, abaixando-se, escondendo-se para passá-la na sola do sapato, ensaiando o acidente. Na verdade, você acabou escorregando de verdade, não foi? Deu para perceber que você se feriu além do planejado. Quantos dedos você queria perder?

O operário estava arrasado. Não era um homem cínico no fundo. Sentia-se esvaziado de energia, frio como uma lagartixa, mas sabia que deveria continuar lutando, mesmo sem forças. Com voz apagada, perguntou:

— Não sei do que o senhor está falando...

— Sabe, sim... Tenho pena do senhor... Pessoalmente, vejo a coisa com certa simpatia.

— Por que estavam filmando? Sou tão importante assim?

— A filmagem nada tinha a ver com a sua pessoa... Há tempos que suspeitávamos do seu colega, o “Canhoto”. Ele vinha nos furtando peças caras há vários meses, mas não tínhamos uma prova segura. Furtava e ainda “fofocava”, a mando do sindicato. Aí, o chefe da segurança sugeriu que a firma instalasse uma filmadora escondida entre aquelas caixas da prateleira mais alta. Assim, pegamos o “Canhoto” com a mão na massa. Quando você estava caído, desmaiado, ele tratou de encher os bolsos extras que tinha mandado costurar dentro das calças. Agora, a pergunta mais importante: Por que você fez isso?

Responder o quê? Se o filmaram até passando a graxa na sola do sapato, não havia muito o que esconder:

— O senhor não vai acreditar... Precisava de dinheiro...

— Isso não precisa dizer... Ninguém joga fora os dedos por diversão. Minha pergunta é: para que você precisava do dinheiro?

— Tenho dívidas. Estou para ser despejado...

O advogado se ergueu, impaciente:

— Por favor, diga a verdade... Você inventou isso agora... Antes de procurá-lo, examinamos a sua vida. Seu aluguel está em dia. E não consta que você consome drogas. Vamos ser francos: não seria alguma complicação amorosa? Você tem sido visto com uma mocinha...

— “Mais essa” — pensou o acidentado. Não adiantaria mentir. Quem sabe, sendo sincero, não comoveria aquele advogado tão distinto?

— Desculpe, vou ser franco com o senhor... Fiz isso por amor... Apesar de velhão, estou apaixonado... Não posso viver sem ela... Precisava alugar uma casa ou quarto e, sem dinheiro, o senhor sabe que não dá...

O advogado já passara também por alguns problemas assemelhados. Sentiu um impulso de solidariedade, percebendo que o operário não mentiria mais:

— Por mim, como disse, o senhor receberia a indenização, mesmo porque quem paga é o INSS . Num país de tantas fraudes, seria uma coisinha de nada... Afinal, você acabou perdendo a mão de verdade. Ocorre que, sem esse filme, nós não podemos “pegar” o “Canhoto”, que tem bons advogados no sindicato...

— Não dá para cortar, no filme, a parte que me interessa?

— Pensei nisso, mas não dá... Se eu cortasse, o “Canhoto” diria depois que se trata de um filme montado. Não serviria como prova.

— Canalha! — exaltou-se o operário, pensando no colega de fábrica. — Sempre tive nojo daquele cara! Era por isso, então, que ele me olhava, disfarçando... Pensava que eu é que estava de olho nele! Que mal esse cara me fez. Mas o senhor não pode examinar de novo e descobrir uma saída? Olhe como estou — e ergueu o toco, dispondo-se a tirar as ataduras para impressionar.

— Não, não preciso ver! Não adianta! O problema é que, se nós escondermos a sua manobra, não informando o INSS, e este depois vier a saber que fizemos isso, posso entrar numa fria porque quem se lesiona, comete um crime. Eu seria um cúmplice, no que se refere ao prejuízo do INSS, meu velho... Caramba, como as mulheres transtornam a cabeça de um homem...

— Uma paixão desvairada, tenho que confessar... — explicou o operário, com certa ênfase dramática e vaidosa, aproveitando o inesperado bafejo de simpatia que lhe poderia trazer alguma vantagem.
Nem bem disse isso e sua mulher abriu a porta com violência, entrando na sala como um furacão, aos gritos:

— Desvairada! Paixão desvairada! Sem vergonha! Maneta burro! Só não meto a mão na tua cara porque não bato em aleijado!

— Calma, você não entendeu!

— Entendi tudo! Estava escutando atrás da porta, me dominando para não te meter a mão! O Romeu ia perder os dedos por causa de uma biscate sem vergonha? Pois informo que perdeu a mão e a putinha! Nesses dias em que você esteve no hospital, tive uma “conversa” com ela. Uma vizinha já vinha me buzinando no ouvido. Mas perca as esperanças, porque depois da nossa conversa ela não terá coragem nem de olhar na tua cara. Está apavorada. Se eu mandar ela lamber meu sapato, ela lambe! Eu não tinha te contado nada até agora porque você tinha perdido a mão. Fiquei até com pena, mas estou vendo que não devo ter pena de um fraco, que aceita perder os dedos por uma biscate. E já vi que não valho nada para você... — E, dizendo isso, saiu da sala. Provavelmente para não chorar na presença de estranhos ou tomar algum remédio, porque sofria de pressão alta.

Silêncio sepulcral na sala.

O advogado se ergueu, impressionado com aquela tragédia doméstica. Gostava de teatro, mas aquilo suplantava qualquer peça. Ao sair, disse que iria reexaminar o assunto e que esperasse alguns dias, não fazendo nenhuma “besteira”. Mas não lhe garantiu coisa alguma.

Caminhando até o carro, estabeleceu um plano de ação. Iria trocar idéias com um dos diretores da firma, que já tinha tido alguns problemas domésticos assemelhados. Um pouco de “precedentes jurisprudenciais” da vida sentimental operariam maravilhas. Tinha quase certeza que encontraria alguma saída para o maneta. Afinal, para que existem os advogados?
Quando o causídico se retirou, o operário foi para o quarto, deitou-se de costas, cobriu os olhos úmidos com o antebraço e ficou quase tão imóvel quanto um morto. Não tinha ânimo nem para respirar.

Na cozinha, a mulher, atordoada, pressão arterial nas alturas, mexia mecanicamente nas panelas e enxugava as lágrimas. Tinha de preparar o almoço.

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