Tragédia na Ilha Grega

29/01/2010

A distinta senhora observa, consternada, seu querido filho que acaba de sair, quase se arrastando, apoiado em duas bengalas, pela porta da frente. O rapaz de dezesseis anos sofreu um acidente gravíssimo alguns meses atrás, caindo — felizmente de pé, do contrário teria morrido — de uma grande altura, quando praticava alpinismo sem que a mãe o soubesse. Os médicos, escolhidos entre os traumatologistas mais competentes e caros do país, tudo fizeram para recompor as pernas do rapaz, quebradas em vários pontos, mas o máximo que conseguiram, pelo menos até agora, foi permitir que o jovem conseguisse se locomover penosamente com auxílio de duas bengalas. Restaram, além disso, como seqüela, alguns desmaios estranhos quando em situação de grande estresse, algo que intriga o neurologista consultado, pois o crânio não fora diretamente lesionado. E, indagados pela mãe, com dolorosa insistência, se após novas operações ele voltaria a situação normal, a resposta foi evasiva. Não chegaria nunca, lamentavam, a ficar como antes, normal, podendo correr e praticar esportes, porque também a bacia e parte da coluna vertebral foram afetadas; mas, seguramente, terminado todo o ciclo de futuras operações, ficaria bem melhor do que estava agora. Era, pelo menos, algum consolo. Se pudesse dispensar as bengalas, como seria provável, já poderia agradecer aos céus. E as perdas de consciência certamente desapareceriam com o tempo.

Todos concordam provavelmente — exceto as mulheres apaixonadas, “ergo” cegas — que o amor de mãe é o único amor autêntico, puro, descontaminado de outros interesses. Isso porque não exige nada em troca. As demais formas de amor sempre implicam alguma forma de retribuição, algum comerciozinho esperto, seja explícito, seja disfarçado: amamos porque isso nos dá prazer, porque satisfazemos nossa carne ou, pelo menos, a libido que impregna nossos olhos e ouvidos. Amamos também por vaidade ou para exorcisar a solidão. Ou porque nos excitamos espiritualmente e essa excitação nos é cheia de promessas, às vezes cumpridas amorosamente com generosos depósitos bancários — faceta humana que não passou despercebida a Nelson Rodrigues, ao afirmar que “o dinheiro compra tudo, até amor verdadeiro”. Mesmo quando não correspondido, contrariadamente platônico, sentimos ainda aquele benefício indireto, a sensação gostosa, enlevadora, peculiar, mágica — nos velhos adormecida talvez há anos — aquele impulso que nos faz voar sem asas. Sensação nada fácil de descrever mas que todos nós provavelmente já sentimos pelo menos uma vez na vida e que nos ficou como um relicário sagrado, secreto, que gostaríamos de conservar intacto até o derradeiro minuto de nossas vidas. Como vê, leitor, uma série de “nos”, “nós” e “nosso”, a comprovar o lado egoístico do amor romântico, ou sexual, ou a gostosa mistura de ambos.

Já a mãe ama sem exigir nada em troca. O filho pode ser inútil, bêbado, viciado, ladrão e ingrato. E não obstante essas “qualidades”, a mãe continua a amá-lo, a se preocupar com ele, a visitá-lo na prisão, vencendo a vergonha das revistas e do ambiente deprimente. Morre de angústia quando surge uma rebelião no presídio — ela está sempre a favor dos amotinados e contra os funcionários, os quais, por sua vez, só contam com a compreensão total de suas respectivas mães.

O próprio pai, honrado, mas realista, cansado de anos de tormento e vergonha, às vezes chega a desejar que o filho morra de uma vez para sossego de todos, inclusive do próprio fruto envenenado de seu sangue. E a mãe muitas vezes ainda se censura por haver falhado em sua educação. — “Onde foi que errei?”, ela se pergunta, angustiada, como se fosse impossível o filho ter o mínimo grau de culpa ou responsabilidade pessoal por seus atos. O filho nunca é culpado. A culpa é sempre, sempre, das drogas, do governo, da sociedade, das más companhias ou dela mesma, por não saber melhor educá-lo. Ou do pai, aquela “besta” ou “coitado”, que não se esforçou bastante para estudar e ganhar melhor ou, se estudou, para ser mais esperto no produzir dinheiro, como seus colegas mais pilantras, com isso proporcionando melhores escolas e empregos ao rebento que já nasceu, coitado, tão desmiolado!

Felizmente, no caso da distinta senhora, viúva, não lhe faltam meios materiais para, pelo menos, amenizar o sofrimento do seu filho. Dores físicas ele pouco sente agora, se não abusa nos seus movimentos, mas é impossível não notar que o rapaz, sempre tão dinâmico, sofre com a falta da antiga capacidade de locomoção. Esse moço, filho único, é todo o seu orgulho e prazer de mulher solitária. É um rapazola de excepcional disciplina, qualidade em parte herdada, mas principalmente injetada pela mãe, uma mulher diferente, fanática pelo estudo, aparentemente pouco interessada em sexo, vez que, embora enviuvando cedo, não mais se interessou por outro homem, apesar de não lhe faltarem admiradores.

O pai do moço, uns dez anos mais velho que a mulher, possuía grande tino comercial, mas era avesso a muita disciplina, livros, estudos e discussões teóricas. Fisicamente preguiçoso, não gostava de andar, de correr e, muito menos — “Seja anátema!” —, de fazer ginástica. Gostava mesmo, nas horas de ócio, é de deitar numa rede no seu sítio com um bom uísque ao lado. Ou assistir a um filme policial cheio de violências. Gostava de comidas exóticas e jogar pôquer com os amigos, sabendo blefar com invulgar frieza. Mas era rico, esperto, desconfiadíssimo, com grande faro para os negócios — algo que não se aprende em escola alguma — e trabalhador, desde que sentado, bolando planos e dando ordens, vivendo a maior parte do tempo com a calculadora numa mão e o telefone na outra. Nunca terminou de ler um livro, alegando ter adivinhado como todos eles terminariam, isso já nas primeiras dez páginas, seu limite máximo de paciência. Pelo visto, encarava um romance como um negócio ou um quebra cabeças mais ou menos inútil, “uma besteirinha inventada, cheia de fricotes, que eu mesmo seria capaz de inventar, se tivesse saco”. Tendia a transformar qualquer problema da vida em seu “equivalente em dinheiro”. Considerações jurídicas, por exemplo, não o interessavam absolutamente quando havia alguma divergência com outro comerciante. Apenas perguntava ao seu advogado: “Vai demorar? Quanto tempo? Não sabe nem mesmo mais ou menos? Dá para esticar uns quatro anos? Quanto me vai custar essa confusão toda, incluindo seus honorários?”, e indagações do gênero. Lamentava, irônico e revoltado, aqueles que passam suas vidas estudando e a terminam relativamente pobres, quase cegos de tanto ler, usando óculos de fundos de garrafa, estudos que em nada engordaram suas contas bancárias. Quando um desses estudiosos morria, costumava dizer, mais por pena que por ironia: — “Que os livros lhe sejam leves...”. E quanto à ginástica, gostava de repetir um pensamento — que se tornou malignamente profético, como o leitor verá em seguida — de Wiston Churchil: “A única ginástica que faço é carregar as alças de caixão dos meus amigos que faziam ginástica”. Mas não escondia, nem mesmo de si mesmo, sentir uma certa frustração quando, numa roda de pessoas cultas, elas conversavam em outras línguas ou discu-tiam temas abstratos, fora da restrita área de seus negócios. E talvez por isso mesmo tenha se encantado quando conheceu a bonita moça, já não tão jovem, mas com menos de trinta anos, de ar distante, reservada, casta, ou pelo menos “difícil”, um verdadeiro fenômeno em termos de conhecimento de línguas estrangeiras e Arqueologia. Como ele não conhecia língua nenhuma, exceto a própria — e assim mesmo com freqüentes pancadarias gramaticais — e a única imagem que lhe aparecia na cabeça, quando ouvia a palavra “Arqueologia”, era a de uma múmia enrolada em panos, saindo de um sarcófago com os braços estendidos, correndo atrás dos Três Patetas, compreende-se que se sentisse atraído por aquela disciplinada erudita de aspecto atraente, tão diferente dele, adepta da ginástica e capaz de ficar horas dentro de uma livraria. Como casara meio tarde e não era feio, tendo um jeitão decidido, estava acostumado a conhecer, no sentido bíblico, grande número de mulheres. Divertia-se, sorrindo, com a “fitinha”delas, de curta duração, de não parecerem “fáceis”, antes de cederem o cobiçado material para os eletrizantes contatos epidérmicos. E sentiu-se desafiado, quase afrontado, quando notou que a bela arqueóloga, fria, distante, inacessível, não dava a mínima para seus belos carrões importados e conversas de homem rico. Assim, desafiado em seu orgulho de macho capaz e bem-sucedido, não descansou enquanto não obteve a mão da moça, no civil e no religioso. E não se arrependeu dessa união, embora devesse porque, recolhendo toda a força de vontade espalhada em seu organismo, apenas para acompanhá-la, meteu-se a fazer cooper, sofrendo um enfarte fulminante no segundo treino. Tornou-se, assim, paradoxalmente, uma vítima fatal tanto do amor conjugal quanto de uma qualidade geralmente muito elogiada, a força de vontade. Se deu tempo para pensar em algo, antes de bater as botas — ou melhor os tênis — certamente foi no quão sábio era o velho estadista inglês que prometia “sangue, suor e lágrimas”, mas não ginástica.

O leitor pode se perguntar como foi que a distante arqueóloga, tão culturalmente sofisticada, classe média alta — não necessitando, portanto, de dinheiro — aceitou o pedido de casamento de um negociante tão rasteiro, tão materialista. É que ele demonstrou, receoso, pensando ser um defeito — sem imaginar o quanto isso a sensibilizava — uma invulgar caridade para com os animais. Ele recolhia, em um sítio perto da Capital, enorme quantidade de cães e gatos abandonados, principalmente se aleijados. Chamava veterinário, cuidava de sua alimentação — até mesmo preparava pessoalmente aos domingos, quando estava lá, grandes panelas de polenta, misturando-a com carne moída. Parecia compensar com “calor humano”, nos bichos, toda a evidente “frieza animal”, negocial, que direcionava para os homens em geral, comportamento algo contraditório, que até mesmo aconselharia um tratamento psicológico. Justificou, certa vez, para a noiva, essa frieza, esse cálculo contínuo, dizendo que jamais sofrera decepção com os animais, enquanto que, dos homens, “e principalmente das mulheres...” — jamais entrou em detalhes — recebera boa punhalada pelas costas, desferida por pessoa queridíssima, em quem confiara absolutamente. Assim, prometera depois a si mesmo jamais reincidir no “crime” da falta de cautela. E, como disse, foi essa surpreendente faceta humana com relação aos animais que conquistou a esquiva estudiosa, a qual, por sua vez, encarando o namorado sob novo ângulo, prometeu com calma “desentortar” sua alma ferida por má experiência.

É sabido que o enfarte, nos moços, é mais perigoso que nos velhos. Pelo visto, Dona Morte, não obstante ossuda e aparentemente assexuada, tem sua libidozinho cavernosa. Prefere muito mais agarrar um homem jovem, esbelto, do que um velhote pançudinho. O qual, por sua vez, nada reclama contra esse abençoado desprezo. Com ele, consegue o tempo extra necessário para escapar do amplexo da calcificada amante, cruzando rapidamente as famosas pontes de safena.

Assim, ela ficou viúva e rica pouco mais de dois anos após o casamento. E não quis casar de novo porque sua verdadeira vocação era a pesquisa, o estudo, não o simples papel de esposa. Mas, como mãe, sua dedicação era excepcional. Rezara para que o filho também tivesse pendor para as pesquisas arqueológicas.

O menino, já naturalmente inclinado para os estudos, acabou obviamente influenciado pela mãe, interessando-se vivamente pela Arqueologia. Era tanto livro sobre esse tema na ampla biblioteca da casa, que sua curiosidade natural mais a facilidade para a leitura acabou direcionada nesse sentido, aprendendo cada vez mais sobre antigas civilizações. Com tanta conversa e leitura, não é de espantar que, aos dezesseis anos, fosse já uma promessa nesse campo. E, certa manhã, surpreendeu agradavelmente a mãe — andava muito desanimado nos últimos meses — com uma proposta:

— Mãe, estive pensando... Li que numa certa ilhazinha grega estão os restos daquele templo famoso sobre ao qual a senhora tanto falou na semana passada. Agora achei a tal ilha. Neste livro aqui — abriu um belo volume encadernado, cheio de mapas coloridos — está a localização exata daquele templo. Veja as fotos das ruínas... — e virou a página seguinte, colocando o indicador em algumas imagens. — Que tal a gente visitar esse templo, pisar naquele chão onde aconteceram tantas coisas interessantes, antes mesmo do nascimento de Cristo? Se não for, claro, muito cara uma viagem à Grécia...

A mãe pegou o livro, leu rapidamente esse trecho, do qual não estava bem lembrada e, contente por ver o filho tão animado — o que não acontecia há um bom tempo — logo concordou com a sugestão:

— Se não for muito caro?!... Filho, nada é caro quando interessa ao meu precoce erudito! — protestou, emocionada, enquanto acariciava a cabeça do jovem. — Quem sabe você — você mesmo! — escreve e depois publicamos uma pequena monografia sobre esse templo grego? Talvez aquela competente arqueóloga alemã, minha amiga, a Elizabeth Loibl, que escreveu este livro aqui — indicou a lombada do volume Deuses Animais — aceite fazer uma bela tradução para o alemão. Seria o máximo do prestígio para você, não acha? Seus colegas iriam morrer de inveja! Eu apenas darei uma conferida no seu texto e ela faz a versão. Seria o mais jovem arqueólogo publicado no Brasil e talvez até mesmo no Exterior, e eu a mãe mais orgulhosa do mundo!
A partir dessa conversa, a ativa arqueóloga, com uma vivacidade de movimentos espantosa — ela, que era um tanto comedida — não pensou em outra coisa, a não ser nos detalhes práticos para chegar à pequena ilha grega desabitada, onde se encontravam as velhas ruínas. Procurou agências de turismo com contatos na Grécia, remeteu xerox das fotos do livro e, quatro semanas depois, já sabia exatamente como chegar lá e quanto ia gastar, inclusive na locação de um veleiro que os levaria até a minúscula ilha.
Alguns dias depois da proposta de viajem, o jovem, visivelmente acanhado, veio com nova sugestão:

— Mãe, estive pensando... Sabe o que seria bom? Passar dois dias lá! A gente chega num dia, manda embora o barco, dorme nas ruínas do templo ou na praia e, no dia seguinte, o barco vem nos buscar. Que tal? A gente leva sanduíches, frutas, refrigerantes... Se o tempo estiver bom, sem chuva, não seria ótimo? Aquele céu azul grego... Levamos uma máquina fotográfica e alguns rolos de filmes para documentar meu futuro trabalho! Que tal a idéia?
— Excelente! Só nós dois! Dois arqueólogos em plena atividade!

Ouvindo isso ele hesitou. Após um curto momento de reflexão, arriscou:
— ... Seria bom, claro, só nós dois... Mas me lembrei agora pouco — mentia, porque pensara muito nisso — se não seria bom convidar a Maria Luísa para ir com a gente... Ela poderia nos ajudar, é prática... Nada muito bem! Numa emergência, poderia ser útil. É corajosa, tem presença de espírito. Afinal, com esse problema nas minhas pernas, a senhora pode precisar de auxílio...
Uma sombra passou pelo espírito da ciumenta senhora, mas ela se esforçou para disfarçar. Essa tal de Maria Luísa era uma moça três anos mais velha que seu filho, talvez interesseira, possivelmente vendo no rapazola apenas uma elevação de estatus social via casamento. Digo “talvez” porque é impossível discernir claramente no coração humano. A moça era bonita, mas de origem muito humilde. Além disso, pouco instruída, se bem que dotada de espírito prático. Em momentos de aperto, chegara a trabalhar sem acanhamento como faxineira. Agora, trabalhava como instrutora num clube de natação.

O rapazola já demonstrara inúmeras vezes estar impressionado ou enamorado — ou excitado seria o termo mais correto? — pela moça, se bem que nunca expressasse essa paixão de modo explícito. Via logo que a mãe não aprovaria qualquer ligação entre eles. Para a conservadora senhora, se três anos de diferença de idades já é algo problemático em casais mais velhos, no caso de seu filho esse rela-cionamento agora pareceria uma piada. Ela quase parecia a mãe dele! O rapaz era franzino, enquanto a moça já era uma mulher completa, ombros fortes de nadadora, ainda cadeiruda, apesar da natação, ligeiramente mais alta que ele, parecendo também um tanto desinibida demais para o gosto da reservada arqueóloga. Usava saias justas, um tanto curtas demais e, certa vez, na praia — durante dois meses servira como uma espécie de enfermeira ou acompanhante, logo após o sério acidente — apareceu vestida, ou melhor, “nua”, com um fio dental tão exíguo que horrorizou a conservadora arqueóloga: — “Essa bundona logo, logo, não entrará mais na minha casa!”, prometeu-se a mãe do rapaz. — “Se ela quer um macho para subir na vida, que procure outro degrau. Meu filho não precisa de tanta proteína assim... E longe dos olhos, longe do coração” — pensou e fez, a rica senhora, dando um jeito de inventar um pretexto para dispensar a robusta banhista, agora uma excelente nadadora, que ameaçava monopolizar o coração do filho. — “Imaginou se ela fica grávida? Vai poder exigir o que quiser!” — ela refletia, à noite, deitada na cama. Parecia-lhe óbvio que qualquer ligação entre o delgado e erudito jovem e “a carnuda” moça só traria problemas. Mas ela, mãe, nunca seria boba de fazer uma oposição clara porque qualquer barreira explícita, erguida pelos pais, só estimula a paixão nos filhos. O que o amor precisa para crescer, nessa fase da vida — e será que o mesmo não ocorre também em qualquer faixa etária? — é justamente da proibição de alguém, pais ou cônjuge, sopro fenomenal que reacende as brasas mais dúbias. — “Ele, ficando longe, logo, logo, esquecerá aqueles presuntos, quando vier a conhecer outras moças da idade dele, mais instruídas e do mesmo nível social... — apostou consigo mesma. O “fio dental” fora, reconhecia, o detalhe que a decidira e mobilizara para a luta em defesa de seu tesouro.

Inteligente, pensou rápido, ouvindo a proposta do filho, logo contra-atacando: — A Maria Luísa? ... Olha, eu teria muito prazer se ela nos acompanhasse, mas gostaria que isso ficasse desta vez apenas entre nós, pode ser?... A Maria Luísa seria de grande ajuda na parte física, material, caso fosse necessário cozinhar, lavar ou transportar muita coisa... Ou nadar, por exemplo... . — sorriu, irônica. — Mas nós vamos levar para a ilha apenas uma ou duas cestas com alguns sanduíches, frutas e refrigerantes. Além disso, os marinheiros que trabalham no veleiro nos acompanharão até a ilha, remando no barquinho. Eles carregarão — já está combinado e mesmo pago — um saco com pequenas ferramentas de escavação, escova, etc. Nem mesmo as cestas de comida nós precisaremos carregar... . E como nossa visita tem um finalidade de estudo, de pesquisa científica, acho que ela vai ficar meio deslocada, ouvindo conversas sobre assuntos dos quais não entende nada.

— Quem sabe ela toma gosto?

— Meu filho, a arqueologia é uma ciência difícil, trabalhosa, exige um tipo de curiosidade — e de persistência! — raras de encontrar. Ela vai se sentir deslocada, como uma analfabeta num congresso de filósofos. A “Epigrafia” — que como você sabe é a ciência de ler e, se necessário, completar, datar e interpretar as inscrições — ela pensará que é algum vegetal, algum tipo de espinafre...

— Ela não é tão burra assim... — ele achou graça.

— Não é questão de burrice, é que a interpretação das inscrições é algo muito especializado. Como saber a data de uma inscrição não datada? Quando, na nossa conversa na ilha, dissermos que certo texto é “retrógrado”, isto é, escrito da direita para a esquerda, ela pensará que o texto é ultrapassado, “jeca”, fora de moda. Se dissermos que a inscrição é stoichédon — que você sabe ser escrita em colunas verticais regulares, permitindo saber se há falta de letras, salvo, talvez, nas extremidades das linhas — ela pode pensar que se trata de algum tipo de salsicha alemã... Não, não dá certo e, no caso de uma emergência, seremos apenas duas mulheres e um rapaz convalescente. Não, ela seria de pouca ajuda...

— E se eu convidar também o irmão dela? É um rapaz forte, decidido, para qualquer emergência... .

— Mas que emergência, filho? É uma ilha deserta, não tem ninguém lá! E não é zona de furacão! Se o serviço de meteorologia da Grécia disser que o tempo vai estar bom no dia seguinte, podemos confiar! Haverá apenas calor, céu azul e as velhas ruínas históricas com mil enigmas para decifrarmos; não na hora, claro, mas depois, com as fotografias e estampagens. Às vezes, um simples acaso, uma enxadada, abre uma imensa janela sobre o passado. A basílica pitagórica da Porta Maior, em Roma, por exemplo, teria ficado ignorada sem o afundamento puramente fortuito da via férrea naquele local.

— Bom, estava apenas sugerindo...

Condoída da decepção, ela fez uma pausa e prometeu: — ... Olha, eu lhe garanto uma coisa: numa outra vez, a Maria Luísa vai junto quando houver algum passeio local, menos chato para ela, menos erudito, menos”grego”, está bem? Além disso, filho, convenhamos, haveria um forte aumento de despesas, se tivesse que comprar mais duas passagens... Não somos pobres, mas não convém abusar, não é mesmo?... Em compensação — ela não sabia se agora estava ou não mentindo — poderemos dar uma festinha aqui em casa depois da viagem, e a Maria Luísa já está convidada de antemão. E traremos uma bonita lembrança grega para ela... Está bom assim?
Não era bem o que o jovem queria, mas a promessa da festinha lhe agradou. E, na verdade, a idéia de visitar a ilha grega não era apenas um pretexto para estar na companhia da moça. A excursão realmente lhe interessava, dava um caráter concreto aos seus estudos e, se sua tese fosse publicada, sentir-se-ia muito orgulhoso. Mesmo que ficasse ainda um pouco entrevado após todas as operações, sua “importância” como estudioso seria um atrativo para as moças cultas, uma compensação para sua deficiência com os membros inferiores.

Dois meses depois, mãe e filho já estavam na Europa, no mar Egeu, num grande veleiro especialmente fretado em direção à pequena ilha desabitada. Como houve um contratempo, só alcançaram a ilha por volta das quatro horas da tarde. E, tão logo chegaram perto, tiveram uma decepção: com o binóculo, viram que a ilhota não parecia tão desabitada assim, pois havia uma grande quantidade de lixo numa parte da praia, embora não se visse viv’alma nem habitação.

— Alguns turistas idiotas ou traficantes andaram jogando lixo e restos de comida nessa ilha durante algum tempo, mas o governo resolveu tomar providências — explicou o capitão do veleiro. — Os guardas deram até uns tiros por aí, prenderam gente, e ninguém voltou mais, nem para fazer um inocente piquenique. Até abandonaram lá alguns estoques de comida. Mas agora já faz uns três meses que turista nenhum vem à ilha para comer. Agora, sim, está bom para a senhora fazer suas pesquisas sossegada. E amanhã teremos tempo bom.

Não podendo o iate se aproximar até a praia, dois marinheiros transferiram para um pequeno bote as duas cestas de vime com alimentos e bebidas, bem como um grande embrulho, envolto em plástico, contendo ferramentas mais leves para as escavações — estas, na verdade, mais uma distração concebida para elevar o ânimo do filho da entusiasta arqueóloga. Um dos marinheiros carregou o adolescente no colo até o bote, assentando-o delicadamente no banco de madeira.

Com vigorosas remadas, o bote logo chegou à praia. Os marinheiros transportaram as cestas e o grande embrulho até a parte mais alta da praia e, certificando-se de que realmente a ilha estava desabitada — era uma ilhota pequeníssima, tendo apenas, como obra humana, as ruínas do antiqüíssimo templo grego — foram dispensados, ficando de voltar no dia seguinte à tarde, por volta das quatro horas. O veleiro também se afastou, pois tinha que fazer algumas entregas em outras ilhas.

Mãe e filho passaram duas horas caminhando lentamente — ele ainda não podia dispensar as bengalas — percorrendo, primeiro a ilha e, logo em seguida, as ruínas. O templo não era muito grande e pouco restava dele ainda de pé. Havia muitas colunas tombadas, não sendo possível também penetrar na parte subterrânea que, pelos esquemas dos estudiosos, deveria ser ampla. Algum terremoto certamente tinha feito desabar uma grande massa de material sobre a entrada dessa espécie de porão, impedindo a passagem de pessoas. Somente animais de pequeno porte poderiam, insinuando-se entre pedras, chegar à parte subterrânea. Alguns homens fortes, usando picaretas, trabalhando duro algumas horas, conseguiriam abrir uma passagem até o subterrâneo, tarefa essa, no momento, obviamente impensável para a estudiosa senhora e seu filho de pernas quase entrevadas.
Mas a visita não ficou de todo frustrada, pois na parte externa acima do solo havia ainda um bom material para ser examinado, desde que com olho experiente.

Sentado, descansando as duas bengalas ao lado, o jovem entu-siasta da arqueologia tirava fotos à vontade, enquanto sua mãe, já descalça, de pé, fotografava os locais mais difíceis. Embora o passeio tivesse sido concebido apenas para a alegria do jovem, ela também estava se divertindo muito com a situação, prometendo a si mesmo retornar uma outra vez, talvez ainda nessa mesma estadia na Grécia, com alguns homens forte para abrir caminho até o subterrâneo do templo. Seu olho científico, já razoavelmente experiente, extrairia talvez fatos insuspeitos, escondidos há séculos.
Foi a escuridão que a obrigou a parar. Não obstante uma enorme lua cheia iluminasse razoavelmente o local, é óbvio que só poderiam continuar as observações no dia seguinte. Além disso, já estava com fome, o mesmo acontecendo com o filho. Este, sentado em uma mureta meio em ruínas, parecia sonhar, muito feliz.

— Filho, tá na hora de acender as lanternas. E vamos atacar os sanduíches! Acenda um farolete, por favor.

O filho puxou para perto uma pequena sacola de plástico, mas depois de gastar um bom tempo remexendo o seu interior, manobrando com faroletes e pilhas, deu a má notícia:

— Caramba! Que azar! Esquecemos de trazer pilhas novas! As melhores que consegui combinar iluminam muito pouco...

Seguiu-se um conversa longa, cheia de críticas à empregada doméstica, que se enganara no separar as pilhas que acompanhariam os faroletes. Em vez de pegar as novas, havia separado as já usadas, muito gastas, fornecendo uma luminosidade fraquíssima.

— ... Bem feito! Isso é para que eu não confie totalmente no trabalho alheio... Custava eu mesmo pegar as pilhas? Como dizem: Quem quer faz, quem não quer, manda.

— Esquece, mãe... Não precisamos de muita luz. O luar é sufi-ciente. Para comer, basta a fome. Vamos começar? — e, dizendo isso, o rapaz se aproximou da cesta de vime, que estava uns três metros distante. Tateando, localizou um sanduíche envolto em plástico. Desembrulhou-o, deu uma mordida e abaixou a mão, enquanto mastigava, distraído, encarando o mar sem ondas.
Quando ele pensou em dar uma segunda mordida, um pequeno vulto escuro passou por cima de seu punho e lhe arrebatou o sanduíche. E logo em seguida, outros pequenos vultos pareceram se movimentar com incrível rapidez, dentro e fora da cesta.

Assustado, sem formar uma idéia exata do que ocorria, pensando até se não haveria cobras por ali, ele olhou na direção da mãe que, também sentada, agora mexia-se inquieta, curiosa, tentando ver dentro da outra cesta, sem compreender direito o que se passava.

Quando a mulher ergueu a vista na direção do velho templo, o medo a paralisou: sob a claridade da lua, dezenas, talvez centenas de grandes ratos saíam, numa massa ondulante — ora marrom, ora prateada, conforme o reflexo lunar — do subterrâneo do templo, emergindo dos escombros. E avançavam na direção deles.

As grandes ratazanas não pareciam temer coisa alguma. Avançavam impulsionadas pela fome atroz, represada desde o dia em que a polícia grega pusera para correr aquelas pessoas que abandonavam alimentos no local. A população de ratos, que crescera muito em razão da abundância de comida, tinha, de um momento para outro, conhecido uma agoniante privação, resolvida parcialmente com ataques de canibalismo. E naquela noite, sentindo o pungente aroma dos sanduíches e frutas, a fome louca tomou conta da persistente espécie animal que, há séculos, desafia, com êxito, seu tenaz inimigo mortal, o homem.

Para os ratos, hoje era o dia da vingança. Eram centenas deles, esfomeados, protegidos pela escuridão, tendo que enfrentar apenas uma jovem e educada senhora, delicada por natureza, que nunca dera um simples pontapé em qualquer coisa viva. A seu lado, um rapazinho apavorado, entrevado, que só andava a custas de bengalas.

Os ratos atacaram de todos os lados. Avançaram inicialmente, claro, apenas nas duas cestas de alimentos. Provavelmente, limitar-se-iam a isso porque, no geral, os ratos, mesmo os maiores e mais desesperados — por maior que seja a fome — nunca atacam aquele ser superior, o homem, salvo se agredidos diretamente com as mãos.

Ocorre que o rapazola, apavorado com aqueles seres repulsivos que passavam por cima de suas pernas, tentou correr na direção do mar. Mas a pressa, a falta de luz e a dificuldade em se locomover fizeram com que ele caísse ao chão, o que alterou completamente o primitivo código de comportamento das ratazanas. Agora, o que estava ali no chão, no mesmo nível delas, já não era aquela espécie temida, cheia de ardis e violências. Era comida, pura e simples. E os ratos partiram para o banquete, mordendo o desesperado moço caído, que logo desmaiou.

A surpreendida mãe, também apavorada, mas procurando manter o sangue-frio, procurou se afastar cautelosamente para longe da sua tumultuada cesta. Tentava não pisar nos roedores que, no chão, disputavam pedaços de sanduíche. No momento, porém, em que percebeu que seu filho já não estava visível, seu desespero foi total. Pôs-se a gritar, chamando-o, pedindo socorro, correndo de um lado para outro, tropeçando, caindo e levantando novamente, nem um pouco preocupada consigo mesma.
Localizado no chão o vulto do filho, já bastante ensangüentado, imóvel, praticamente coberto de ratos, ela, com uma coragem de leoa, passou a arrancar com as mãos nuas, indiferente às mordidas, todos os ratos que cobriam o rapaz. Lembrou-se, então, de que se arrastasse o filho até o mar talvez ficassem livres dos roedores.

Todavia, no primitivo código de comportamento dos esfomeados, existe um parágrafo único que diz o seguinte: se sua comida lhe está sendo subtraída, você tem o direito de lutar contra o ladrão. Se aquele grande animal de saia, culto ou não, até então respeitado, se atreve a lhe roubar o difícil pão, ele é um impostor, um desonesto, devendo ser atacado e destruído. Assim, passaram a atacar e morder também a mãe do rapaz, ferindo seus pés desnudos.

A arqueóloga, mesmo asquerosamente mordida, não desistiu de arrastar o filho em direção à água. Todavia, ela não sabia nadar. Assim, teve que permanecer perto da praia. E mesmo dentro d’água, os ratos não desistiram da refeição. Nadavam em volta, tentavam subir no corpo da mulher. Mordiam-lhe mãos e braços. Queriam apenas que largasse a comida deles. Como o mar era um verdadeiro lago sereno, nada atrapalhava o persistente ataque da horda esfomeada.

A mulher resistiu o quanto pôde às mordidas. Essa luta durou mais de uma hora. Seus braços nus eram carne viva. E seu filho, concluiu, estava morto. Assim, para não morrer também, quase desfalecida de cansaço e fraqueza, meio bestificada, acabou largando o cadáver, que flutuava. E não teve forças para reagir quando percebeu, sem acreditar em seus próprios olhos, que os ratos, nadadores infatigáveis, rebocavam a presa de volta à praia.
Junto à areia, os ratos acabaram de devorar o rapaz. A carne que ficou dentro d’água permaneceu quase inteira. A parte que ficou acima da superfície, foi comida quase totalmente até os ossos.

A jovem senhora passou a noite inteira no mar, quase imóvel, com água pela cintura. Estava anestesiada e não reagiu inicialmente quando, na manhã seguinte, o veleiro chegou, por acaso, mais cedo, às dez horas.

O capitão, pelo binóculo, percebeu algo estranho. Os mesmos marinheiros que a haviam transportado anteriormente, ao retornarem agora à praia, tentaram indagar dela o que ocorrera, pois não compreendiam aquela cena de horror, principalmente o cadáver descarnado do rapaz.

Não havia rato algum na praia àquela hora. Mas a mulher não dizia coisa com coisa. Apenas gritava o nome do filho, gemia, falava desconexamente, arrependia-se de não ter tido a ajuda da moça do “fio dental”. Ordenava, aos gritos, imperiosa, a uma abstrata “Maria Luísa” para que puxasse depressa seu filho para longe da praia.

Como os marinheiros sabiam que na ilha estavam apenas duas pessoas, logo concluíram que a mulher enlouquecera.

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O primeiro romance escrito pelo autor, fortemente inspirado em um processo criminal.

Código Civil Brasileiro interpretado pelos tribunais

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Brasileiro interpretado
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Coletânea de jurisprudência, artigo por artigo, sobre o Código Civil de 1916, em colaboração com o Dr. Lair da Silva Loureiro Filho. Obra de 1.169 páginas. Os autores "enxugaram" os acórdãos, eliminando os parágrafos não relacionados com os assuntos em exame e salientaram doutrina e jurisprudência citadas pelo relator do acórdão.

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World Government and Other Polemic Issues

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Este e-book constitui o reconhecimento do fato de que a Internet é o meio mais eficaz de alcançar uma audiência mundial, em qualquer lugar e a qualquer momento. Ele está sendo disponibilizado com o objetivo de motivar as pessoas a acreditar que, se receberem informações corretas e opiniões honestas, o mundo pode ser mudado para melhor. (livro no idioma inglês)

Criônica

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Trata-se do primeiro romance em língua portuguesa sobre a Criogenia aplicada em seres humanos. Uma obra de ficção que relaciona alguns conhecimentos da área científica.

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