Suicídio

29/01/2010

Foi um choque quando, lendo o jornal, ontem de manhã, soube do suicídio do Dr. Nilsen, meu colega de Faculdade de Direito e atualmente Delegado de Polícia. Eu o visitara uma semana antes, num ato de solidariedade. Estava afastado do trabalho, sob acusação de “violência policial”.

Matou-se com um tiro na boca, o que me fez cogitar se essa forma de auto-eliminação não é influência do cinema. Duas ou três décadas atrás, os suicídios com arma de fogo geralmente ocorriam com um disparo na têmpora ou no ouvido; ou, mais raramente, com um tiro no coração. Depois, à medida que os filmes americanos difun-diam imagens de policiais — quase sempre eram policiais logo após a aposentadoria — se esperassem um pouco mais não fariam isso — enfiando lentamente o cano na boca, aumentou significativamente a proporção daqueles que utilizam essa técnica tão impressionante.

A explicação não é difícil: um policial, pelo seu profissionalismo, sabe que um tiro nessa posição, com o cano meio erguido, é uma garantia de resultado. O que nem sempre acontece quando a bala é disparada por amadores contra a têmpora, às vezes com forte desvio da bala. Conheço um caso — li os autos do processo — em que a bala penetrou no crânio, seccionou o nervo óptico e saiu pela testa, poupando a vida do desesperado. Ficou apenas cego de um olho. Nem mais, claro, nem menos, como?, inteligente; o que nos faz pensar que temos excesso de neurônios.

Financista — no geral um sujeito fisicamente desajeitado —, não enfia o cano na boca. Talvez porque, acostumado com iguarias finas, sinta inconsciente nojo do ferro frio, temperado com óleo e pólvora. Disparando no ouvido, às vezes escapa de seu propósito porque não direciona bem o cano. Em suma, incompetência. Ele pode conhecer os segredos do dinheiro — na verdade pensa que conhece, se considerarmos a sua derrota final — mas é o policial quem sabe, com minúcia, os dramas da vida e da morte.

Isso sem considerarmos que o financista, quando eventualmente malandro e preso, pode estar apenas fazendo jogo de cena, de olho na reação do público e do juiz encarregado do caso. Um homem ferido comove. Parece que se arrependeu. Quem sabe, com o “tresloucado gesto”, bem difundido pela imprensa amiga, receberá pena leve. Com tempo de desfrutar uma felicidade bem remunerada. Não no frio Paraí-so, mas em algum ameno paraíso fiscal.
Pedindo perdão à alma do Dr. Nilsen por esta insensível divagação técnica, posso afirmar que pela face da Terra passaram pouquíssimas pessoas com tão violenta — esta é a palavra, embora estranha — integridade. Jamais encontrei um homem tão radical e tão coerente no modo de encarar o mundo e os deveres de sua profissão. E, paradoxalmente, isso o arruinou. Aliás, tinha mesmo que arruinar, pois vivemos num mundo — principalmente o jurídico penal — de eruditos faz-de-conta.

Em verdade, na Faculdade não éramos amigos muito chegados. Apenas bons colegas. Ele era um rapaz de convivência “difícil”, à falta de melhor adjetivo.
Parecia um fiscal da moral, um censor severo, alma nascida velha de muitas décadas. Sério, caladão, alto, aloirado, olhos cinzentos, magro porém forte, com uma expressão entre pensativa e amarga que já me sugeria tragédia. Quando a estudantada irresponsável fazia algo errado ele só a encarava, melancólico e crítico, como que desejando, só com o olhar, enfiar algum juízo nas alminhas irresponsáveis. Era um olhar de avô em rapaz de vinte anos. Por isso era evitado, o que não lhe fazia qualquer dano porque era um solitário.


O pai dele — assassinado na sua presença quando tinha oito anos, dentro de um banco, morto por haver reagido — era norueguês ou sueco, coisa assim. Nórdico, com toda a certeza, basta ver o nome. Viera para o Brasil meio fugido, depois de absolvido no seu país num crime de homicídio. Matara um pescador em legítima defesa, mas os irmãos da vítima não concordavam com o veredicto. Para não ter que matar a irmandade toda, que o caçava sem disfarces, preferiu viver nos trópicos. A mãe de Nilsen era pernambucana, de pele clara, mas eu a conheci apenas de fotografia. Um ano depois da morte do marido, ela casou de novo, mas Nilsen não se dava com o padrasto e vice-versa.

Eu costumava dizer — baseado em leituras cheias de lugares-comuns, como é usual — que as brumas nórdicas, grávidas de melancolia, que impregnavam a alma de seus ancestrais vikings, haviam chegado ao Brasil pela genética, adensado-se no miolo compenetrado desse brasileiro de olhos tristes. Estivemos na mesma classe os cinco anos do Curso de Direito, ambos com notas boas, desculpe a imodéstia. Mas ele estudava muito mais do que eu. Aliás, do que todo o mundo. Era inteligente, mas com certa morosidade no se expressar. Sua mente era metódica, lógica, conseqüente, profunda, pesada, mas sem nenhuma vivacidade latina. A contribuição genética da mãe foi, nessa área, mínima.

Compartilhamos o mesmo quarto na pensão de estudantes, mas só durante alguns meses. Percebendo seu caráter reservado e por demais ordeiro, achei melhor mudar para outro quarto. Inventei uma desculpa, que ele deve ter percebido, mas nada comentou.

Sempre fui muito desorganizado com minhas roupas, sem me sentir excessivamente culpado por isso. Contudo, com essa nórdica e ordeira companhia de quarto, quando eu deixava qualquer roupa fora do lugar, logo me apressava em arrumar as coisas antes que o Nilsen a visse, tal qual um menino travesso quando ouve os passos da mãe severa se aproximando. E, para falar a verdade, muitas vezes eu tinha a impressão de estar ao lado de uma bomba-relógio humana de mecanismo muito complicado para me atrever a desmontar. Embora contido, Nilsen era nitroglicerina pura. E não acredito que seu modo de ser tivesse relação estreita com o trauma provocado pela morte violenta do pai. Não sou psicólogo, mas meu palpite é que Nilsen nasceu assim. Mas, como disse, é opinião de leigo.

Nossos temperamentos eram completamente diferentes. Sempre fui brincalhão, comunicativo, amigo de anedotas e estórias engraçadas. E minhas pretensões de espirituoso tinham, com o Nilsen, bilhete apenas de ida. O dito supostamente engraçado lá ia, batia nos olhos contemplativos e caía, sem nenhum retorno. Ou havia um retorno tão sério que eu me sentia como um palhaço superficial. Para piorar minha frustração, finda a anedota, ele me olhava gravemente, como que aguardando uma observação complementar: — “E aí?” — ele às vezes perguntava, sério. Não é que ele não entendesse a graça, pois era inteligente. É que aquele desfecho lhe parecia tolo, insatisfatório, superficial, a merecer uma melhor explicação, algo que justificasse tanta alegria. Esse olhar desarmava qualquer um. Se fosse possível alguma analogia entre espírito humano e motor de carro, diria que a mente do Nilsen estava sempre engatada em primeira, com força e lentidão. Só servia para subidas bem íngremes.

Não me lembro de ter visto o Nilsen dando uma gargalhada. Pensando bem, nem mesmo me lembro de uma boa risada. E — estranho que só agora tenha notado isso — espremendo a memória não encontro nenhum quadro nítido em que ele aparecesse sorrindo, francamente alegre. De alguns raros meios sorrisos irônicos eu lembro; embora ele não aprovasse, no geral, a ironia. Arma — segundo suas palavras — da fraqueza, do subterfúgio, do não enfrentamento . E Nilsen gostava de enfrentar. Acho que eram os fantasmas dos Vikings, fervilhando no seu sangue, cercando os pequenos castelos da Inglaterra. Exigindo a entrega das mais belas mulheres, sob pena de morrer todo mundo queimado. Há quem atribua a invulgar beleza das mulheres escandinavas a tais roubos sistemáticos dos mais belos genes.

Ele parecia encarar o mundo de maneira séria demais. Quando se sentava para estudar, ficava horas e horas imóvel, uma estátua de persistência. Três, quatro, cinco horas se passavam e o Nilsen de olho vidrado no texto, parecendo nem respirar, fizesse frio ou calor. Eu brincava dizendo-lhe que, a continuar assim, logo seria um hemor-roidário erudito. Mas, para compensar tanta imobilidade, ele, todos os dias, sempre metódico, fazia uns vinte, trinta minutos de exercício com halteres antes do banho. Banho frio sempre, verão ou inverno, coisa de louco. Durante um bom tempo, treinou pugilismo, ao que parece levando a coisa com excesso de rigor, pois com freqüência aparecia machucado. Praticava, de vez em quando, a pesca submarina, esporte que, em razão de um acidente que relatarei depois, teve profunda conseqüência na sua vida.

Nilsen parecia não conhecer o medo. A impressão que me transmitia era que não apenas dominava o medo — o que basta para nos livrar a cara e já é uma façanha e tanto. Simplesmente não o sentia.

E isso contribuiu muito para sua perdição. Um pouco de medo é imprescindível, salutar, protege a pele e o bolso nesse medíocre e complicado mundo em que vivemos.

Uma das violentas ojerizas dele era contra o ruído. Odiava, portanto, rádios e vitrolas em geral, pois numa pensão de estudantes havia um inegável abuso acústico. Àquela rapaziada alegre parecia impossível que os demais não gostassem de ouvir música moderna em alto volume. Como estava constantemente estudando, qualquer ruído era um estorvo para seus objetivos. E na busca de seus objetivos era extremamente radical.
Um dia, numa aula de Medicina Legal, ele deu uma amostrazinha do seu radicalismo.

O caso foi assim: o professor explicava que todo bebê vem ao mundo revestido de uma espécie de gordura, ou sebo — não me lembro exatamente da palavra técnica. E quando não respira de imediato, médicos e parteiras costumavam — não sei se ainda fazem assim — pegar o bebê pelos pés, balançando-o para cima e para baixo, forçando com isso sua respiração. Mas, relatava o professor, numa dessas manobras — havia registro nos livros de Medicina Legal — o recém-nascido, ao ser balançado, escorregara das mãos do médico e voara pela janela. Caindo do quarto andar, morrera na hora. A explicação não é desnecessária porque esses bebês são de lascar, havendo casos de sobrevivência em quedas de altura ainda maior.

Algumas alunas, ouvindo isso, expressaram sua surpresa e dor — ah, o meigo instinto maternal! — com gritinhos aflitos. Uns poucos marmanjos chegaram a rir discretamente porque o fato, não obstante trágico, comportava um ligeiro toque de humor negro. Numa comédia dos Três Patetas, por exemplo, a cena provocaria risos; mesmo porque o bebê sairia ileso. Mas um determinado colega de classe do Nilsen, gozador emérito, sentado duas carteiras atrás, começou a rir abertamente. Parecia achar uma graça enorme na provável cara espantada do azarado médico.

Não obstante o professor já houvesse mudado de assunto, o referido estudante continuou, à meia voz, fazendo comentários engraçadinhos sobre o arremesso. A cena lhe parecia um tema inesgotável.

E o próprio professor, um homem tímido, paciente, já dava sinais de estar incomodado, mas sem se atrever a mandar o estudante — um rapaz alto, agressivo, filho de um figurão — calar a boca.

As piadinhas, mesmo ditas em voz baixa, já estavam beliscando as orelhas sensíveis do Nilsen. Virou-se ostensivamente para trás para ver se, só com o olhar, convencia o colega a parar com aquilo. Era o barulho, certamente, que o incomodava, não o tema em si.

A olhada melancólica de Nilsen não surtiu resultado algum. O gozador prosseguiu nas observações intermitentes, que provocavam risinhos no colega ao lado.

A insistência do piadista levou Nilsen a novamente se voltar na carteira e colocar o dedo indicador na vertical, junto aos próprios lá-bios, no clássico gesto de quem pede silêncio.

O estudante falador novamente não deu bola. Talvez tenha pensado que silenciar, naquele momento, seria uma forma de submissão. Estaria acatando ordem de um simples colega. E para agravar a coisa, havia três ou quatro moças observando a cena, detalhe que já provocou muita desgraça. Como todos sabem, cheiro de mulher — leitora amiga, falo metaforicamente — alvoroça do jeito errado a valentia de macho idiota. Assim, o engraçadinho continuou com as piadinhas.

Cinco segundos depois, o Nilsen, em plena aula, levanta-se calmamente, pede licença para o estudante que estava logo atrás, afasta-o para o lado e desfere violento murro junto à orelha do falador, que caiu desacordado. Se não houve um nocaute puro e simples, ocorreu pelo menos um nocaute técnico.

Foi realmente uma pancada e tanto. Vendo que o outro não levantava para o revide — não era medo, não havia condições — Nilsen pareceu hesitar se voltava simplesmente para sua carteira ou deixava a sala. Mas logo percebeu — o professor estava bestificado — que não havia clima para o prosseguimento normal da aula e retirou-se.

O agredido foi levado para ser medicado na Diretoria e Nilsen só não foi expulso da Faculdade porque a vítima tinha realmente passado dos limites. O professor depôs em seu favor. E deve ter delirado de alegria intimamente, sentindo-se reconfortado com o punho vigoroso do anjo vingador. Nilsen pegou uma suspensão de dez dias, mas o “nocauteado” também, por atrapalhar a aula.

Pelo que lembro, não houve revide, ou porque o agredido compreendeu que havia se excedido na falação ou, mais provavelmente, porque a potência da porrada, conjugada à calma de seu autor, eram um indício seguro de que piores desgraças aguardariam a vítima se convidasse Nilsen para um acerto de contas na esquina.

Mas esse não foi o único incidente de Nilsen na Faculdade. Talvez aquele que vou relatar agora já fosse do conhecimento do escoiceado em classe — daí sua postura de “compreensão”.

É de tradição — idiota, mas tradição — que os aprovados no vestibular de Direito recebam pequenos, médios ou grandes ultrajes — denominados “trotes” — quando da matrícula no primeiro ano. Os veteranos mais sádicos, geralmente os menos inteligentes da escola — o sadismo exagerado funciona, no caso, como uma forma de compensação — não podem perder aquela chance única de “brilhar”, impondo aos inseguros calouros pequenas humilhações, tais como lhes cortar o cabelo, pintar o rosto e o corpo, despejar cerveja na cabeça, etc.

Nilsen não se incomodou com o fato de se tornar careca durante alguns meses. Definiu, dentro da sua singular cabeça, que essa
imposição era “normal”, uma tradição “bobinha”, mas tolerável. Assim, antes mesmo de se dirigir à Secretaria da Faculdade, raspou a cabeça numa barbearia e foi se matricular.

Ocorre que aos veteranos não interessava o fato de o calouro se tornar careca. O importante era que a “tosquia” fosse feita por eles mesmos, veteranos, e de modo deliberadamente mal feito, deixando a cabeça do noviço igual a um ninho de ratos. Foi um choque, uma tremenda ofensa, portanto, a visão daquele calouro alto, já careca, limpinho, passando direto, calmo, entre aquele grupo de calouros assustados que se deixavam tosquiar e pintar com resignação temerosa.

— Ei! Onde vai? — perguntou um veterano.

— Vou me matricular.

— Quem te cortou o cabelo? — o veterano imaginou até que esse calouro já fora devidamente “troteado”, tomara banho e depois voltara para a matrícula. Tanta segurança não teria outra explicação.

— Ninguém. Achei melhor eu mesmo cortar. Serviço mais bem feito, não acha?
Se havia tom de provocação nisso, ninguém informou depois.

— Você mesmo cortou?!

— Eu não. O barbeiro.

O veterano não acreditava nos próprios ouvidos. Tendo ao lado dois outros veteranos, que escutavam a conversa, sentiu-se confiante para algo mais concreto que o simples espanto. Teria apoio.

— ... Bicho, se você cortou no barbeiro, gastou dinheiro à-toa, porque vamos cortar outra vez.

— Impossível. Não há mais o que cortar... — se sorriu, nesse momento, também não sei, porque esse diálogo me foi contado por um colega.

O veterano não acreditava em tanta segurança. Mas não podia se desmoralizar. Ocorre que realmente não havia mais cabelos ao alcance de sua velha tesoura enferrujada, ultimamente utilizada por sua mãe nos cuidados do jardim. Assim, pensou em derivar a poda capilar para o trote de pintar o rosto e o corpo do Nilsen.

Mal o veterano iniciou os atos concretos para essa forma de humilhação acadêmica, Nilsen o agarrou, com a mão esquerda, pela camisa, pondo-o contra parede, ao mesmo tempo em que, com a direita, desferia potentes socos no rosto e abdômen do veterano. Suponho que foi tal a massagem nas tripas, que o dono delas não veio jamais a sofrer de prisão de ventre nos vinte anos seguintes. E se pensou em reagir, pensou tarde, ou melhor, sonhou, pois já repousava nos braços de Morfeu.

E o que fizeram os outros veteranos? — deve estar se perguntando o leitor. Eu também me pergunto. Pelos relatos, um deles esboçou um ataque, sem muita convicção — todo veterano sente, no fundo, no fundo, que está sendo injusto — e recebeu a sua dose, também cavalar, do “xarope porrada”, irregistrável no Ministério da Saúde. Com a pancada, cambaleou, vesgo, estuporado. Nilsen largara o primeiro veterano, que simplesmente escorregou docemente pela parede, em câmera lenta, como se vê nos desenhos animados, passarinhos cantando e voando em círculo sobre sua cabeça. Enquanto isso, outros veteranos, sem compreender bem o fenômeno que ocorria, simplesmente olhavam, não se atrevendo a modificar aquela excêntrica realidade. É sabido que uma excessiva — mas tem que ser autêntica — autoconfiança produz esse efeito inibitório nos circunstantes. E Nilsen afastou-se, sem pressa, apenas ligeiramente alerta, para fazer a sua matrícula.

Nós dois já bacharéis, fui trabalhar com um advogado da área cível e mantive alguns contatos com o Nilsen, que se tornara Delegado de Polícia. Tivemos, nesses encontros, longas conversas. Ele casara — a meu ver, sem gostar da mulher — logo depois de entrar na polícia; casamento que me parece ter deixado suspeita impressão digital no conflito íntimo que o levou, muitos anos depois, ao suicídio. Sobre isso falarei mais adiante.

De vez em quando, comíamos uma pizza, juntamente com outros ex-colegas da Faculdade.

Dois anos depois de formado, numa tarde de pouco trabalho, ocorreu-me a idéia de assistir aos exames orais de candidatos que prestavam o Concurso de Ingresso à Magistratura. E não fiquei surpreso ao encontrar, entre eles, o Nilsen.

Boa decisão, a dele, pensei então. Seu cérebro era, em todas as suas dobras, o de um juiz severo. Se havia perigo em seus punhos, a própria toga era uma quase garantia de sua não-utilização. Ninguém, hoje em dia, no seu juízo perfeito, desafia o juiz para acertar, no braço, o mérito da causa. Isso só acontecia na Idade Média, nas “Ordálias de Deus”. Deus que, certamente, detestava o envolvimento de seu nome naquela besteira. Segundo a compreensão da época, Deus impediria o prevalecimento do mal. Estaria sempre dando uma mãozinha ao inocente, fazendo-o vencer o duelo. Mas o próprio juiz — dizem alguns processualistas, se li direito —, poderia ser desafiado pelo perdedor — se ainda vivo. O que, certamente, obrigava os magistrados a cultivar não só a mente como também os músculos. Em vez de Escola da Magistratura, era prudente freqüentar cursos de equitação, lança, espada, maça e machado.

Hoje o litigante não briga com o juiz, não só porque pode ser preso em flagrante — com aquela ridícula sobremesa de corre-corre de panos quentes para que todos se saiam bem do incidente — como também porque o litigante tem esperança de ganhar a causa, já na primeira decisão. E não briga depois da sentença porque não adianta: quem vai decidir o recurso não é mais o mesmo juiz. Como se vê, é sábia a Ciência do Processo.

Voltando ao Nilsen, logo depois de minha chegada ao grande recinto das inquirições no Tribunal, ele foi chamado para o exame oral.

Pelo que depreendi — meus conhecimentos jurídicos eram então ainda menores do que são hoje para poder avaliar, em profundidade, as respostas — Nilsen saiu-se muito bem na inquirição do primeiro examinador. Respondia com precisão e sem pressa. Mas com o segundo examinador houve um certo alvoroço.

Como o público leitor, em geral, nada conhece sobre concursos de ingresso à magistratura, não me parece inútil um pequeno parênteses para uma explicação sobre como são realizados tais concursos, muito concorridos.
A banca examinadora é constituída de dois desembargadores e um advogado, representando este a Ordem dos Advogados do Brasil. Desembargador — não confundir, por favor, com comendador — é o juiz, o magistrado, que ocupa o mais alto cargo judiciário no Estado. É o juiz que passou a integrar o Tribunal de Justiça, cumprindo lembrar que há um único Tribunal em cada Estado da Federação. Quando o juiz é promovido para o Tribunal, passa a chamar-se desembargador — designação que só existe no Brasil e em Portugal. E, existindo apenas um Tribunal de Justiça em cada Estado, é natural que tais cargos sejam vistos com bastante respeito, verdadeiro ou fingido — o que também é uma forma de respeito. Se o cargo provoca aversão em algumas pessoas, isso ocorre porque sempre que se vê alguém em posição mais elevada ficamos aborrecidos. A menos que o melhor situado ganhe muito pouco, um excelente bálsamo.

Esclareça-se que o juiz, normalmente, só chega ao Tribunal, agora com a nomenclatura de desembargador, depois de duas ou três décadas de trabalho, o que lhe proporciona um treino invulgar na aplicação concreta das normas jurídicas. Mesmo que não sinta espe-cial entusiasmo para estudos profundos de doutrina ele é obrigado, para resolver algumas questões mais complicadas, a estudá-la, pelo menos para fundamentar o seu voto, o que beneficia sua erudição.

Note-se ainda que, além de ser desembargador, o componente da banca examinadora, antes de convocado para essa tarefa, já está no Tribunal há alguns anos. Tudo isso sendo dito agora para demonstrar que o examinador, na banca de concurso, é um magistrado tarimbadíssimo, treinado no ofício de examinar argumentos opostos, manobrados com profundidade ou malícia — ou ambas as coisas — por advogados, no geral, inteligentes e preparados. Alguns, verdadeiros mágicos na arte de argumentar.

Não obstante, um desembargador, por mais competente que seja, não conhece de cor, na ponta da língua, todas as leis do país. Só de leis federais, temos, no Brasil, mais de setenta mil. Fora as leis estaduais e municipais. Assim, não é impossível que, num exame oral, um fedelho, cheirando a fralda preenchida, tenha a sorte de ser indagado sobre um tema ou tópico que conheça, por coincidência, mais do que o próprio examinador — não obstante o superior conhecimento deste da Ciência do Direito, como um todo.
E foi o que aconteceu com o Nilsen. Talvez numa daquelas assentadas filo-hemorroidárias de cinco horas contínuas de estudo, sem quase piscar, meu ex-colega tenha se detido em determinada lei, esmeri-lhando-a sob todos os ângulos; de tal forma que, naquele específico tópico, nenhum jurista, vivo ou morto — invocado em sessão espírita —, sabia mais do que ele.

Nilsen teimou com o examinador e, pelo tom geral do debate, dominava melhor o detalhe. Digo isso só pelo jeitão do diálogo, pois eu estava, naquele cipoal de conceitos, como já disse alguém, “mais por fora do que língua de cachorro cansado”.

Essa superioridade momentânea, tópica, de Nilsen foi a opinião geral. E quando o examinador quis avançar, mudar de assunto, sentindo que aquele pedacinho de chão não era sua especialidade, Nilsen não deixou, o que demonstra a sua falta de jogo de cintura.. Como que agarrando pela boca da calça alguém que se debatia, tentando fugir, insistia, “com todo o respeito de Vossa Excelência”, nos desdobramentos do tema, de certa forma assumindo postura de examinador.

A tal ponto, que o primeiro examinador interferiu para lembrá-lo que o examinado, ali, era ele, Nilsen, não quem o inquiria naquele momento.
Com o examinador advogado, da OAB, a coisa foi ainda pior. Era um advogado da área criminal e provavelmente já tivera alguma experiência má com o Nilsen, na qualidade de delegado de polícia. Demonstrava, no tom de voz, já no início da inquirição, certa agressividade, que logo encontrou a pétrea, desafiante reação contrária, no momento em que a inquirição resvalou para outro tema que Nilsen, por acaso, conhecia bem, bem demais. Nilsen estava com uma tremenda sorte naquele dia e grudou no assunto como uma craca no casco de um navio. Foi muito difícil para o examinador mudar de assunto sem desdouro.

Nilsen, eu soube dias depois, foi reprovado. A meu ver, pelo que ouvi, injustamente, ainda que não possa garantir essa opinião, como disse, por falta de conhecimento específico. Outros que assistiram aos “duelos” também se surpreenderam com a reprovação. Pelo menos em razão da firmeza das respostas, sem entrar no seu mérito. Mas correu a notícia de que sua não-aprovação resultou apenas do exame psicotécnico: — “Componente de agressividade muito elevado”. — Outros ainda asseguraram que foram seus antecedentes, como poli-cial, a causa da não-aprovação. Tais antecedentes mostravam um temperamento “incompatível” com o tipo de personalidade serena, aconselhável para um magistrado.

Nilsen tentou mais um concurso, sem sucesso, e, aborrecido, decidiu continuar na polícia, para terror dos bandidos e rancor daqueles que consideram o criminoso apenas um produto da injustiça social, negando qualquer componente de autodeterminação. Aliás, dizia Nilsen, contestando essa corrente: — Quando o criminoso é rico, é criminoso “porque á safado, mesmo!”. Se é pobre, não é propriamente criminoso, nunca é safado, mas uma vítima da injustiça social. — Como odiava assaltantes, de modo especial — seria lembrança da morte do pai? — era melhor não defender bandido perto dele. Ponderava: — Como se explica que, numa mesma família pobre, haja três irmãos honestos e apenas um bandido? O ambiente, afinal, é o mesmo! Devia ser tudo igual! Não, o assaltante é o mau caráter das classes pobres. Se fosse rico, talvez não assaltasse, mas roubaria o dinheiro público, ou o sócio, ou o cliente. O ladrão de banco, por exemplo, deveria parar com os roubos logo após o primeiro roubo bem-sucedido. Com o dinheiro, montaria um pequeno negócio. Mas não, continua a roubar. Falta de vocação para o comércio? que se tornasse agricultor, ora essa!

Quando visitei Nilsen, pouco antes de sua morte, ele estava afastado, sob sindicância, às voltas com um caso de “violência policial”. Os jornais tinham noticiado que ele espancara um rapaz de vinte e cinco anos dentro da delegacia. E no jornal a foto do moço, de boa posição social, que cheirara cocaína pouco antes — verificou-se mais tarde — mostrava vários hematomas no rosto. Um olho estava totalmente fechado, de tão inchado. Todavia, pelo que apurei, o caso não foi propriamente de espancamento, mas de “duelo” provocado pelo próprio agredido, meio fora de si em razão da droga. Como, porém, o moço tinha um irmão jornalista, prevaleceu a versão dada pela imprensa.

O que aconteceu realmente foi que alguém telefonou à Delegacia para dizer que, na porta de uma boate, o rapaz havia agredido uma moça. Coisas de ciúmes, ou dinheiro, ou a mistura habitual dos dois ingredientes. Detido, o agressor disse que não iria a “porra nenhuma” de delegacia, desafiando todos os policiais. Sacou da arma e disparou para o ar, sendo dominado em seguida. Levado à delegacia, entrou batizando todo mundo de “bundão”, inclusive o próprio Nilsen, que estava de plantão — com perdão pela rima.
Nilsen tentou acalmar o valente, sem êxito. E ainda foi insultado e desafiado: — “Por que você não me enfrenta, de homem para homem, seu “bunda mole”? — De onde ele tirou essa idéia não se sabe, pois Nilsen era enxuto, adepto de esportes. — É fácil mandar os outros brigar por você...” — o alterado acrescentou, referindo-se aos demais policiais.

Até aquele momento, ninguém sabia que toda aquela valentia era produzida, pelo menos em parte, pela cocaína. Como o moço era rico e estava apenas ligeiramente alcoolizado, mas sem cambalear, a exibição de audácia parecia mesmo valentia, difícil de tolerar. Assim, ouvindo isso, a bomba que dormitava dentro de Nilsen começou a fazer “tic-tac”, detonando com uma simples pergunta: — “Você insiste em me enfrentar de homem para homem?”

— Claro, “bundão”! Preciso dizer duas vezes?! — foi a resposta do candidato ao suicídio.

Nilsen levou o ilustre cavalheiro para uma sala dos fundos da delegacia, tirou o paletó, trancou-se com ele, ambos desarmados, e proibiu qualquer interferência de seus subordinados. O que aconteceu lá dentro só se pode deduzir pelos sons cavos das pancadas e pelo estado do rosto do rapaz quando a porta foi aberta.

Como disse, o moço era irmão de um jornalista e as fotos só incriminavam o delegado, que não tinha um arranhão sequer no rosto. Além disso, apresentava inchaços de sobra nos nós dos dedos da mão direita. “Violência policial” típica.

A imprensa insistiu muito no detalhe da vítima estar um pouco fora de si. Dizia que ela experimentara, pela primeira vez, induzida — quem pode provar o contrário? — umas cheiradas de cocaína, o que não é crime, em si — o crime é o porte da droga. — Como se fosse possível” — dizia Nilsen —, cheirar sem ter portado. Dizia o jornal que o delegado, como experiente homem da lei, deveria ignorar as ofensas verbais, os desafios, por pior que fossem, eis que não eram plenamente conscientes.

— Como saber? — indagou-me Nilsen. — Se ele não estava totalmente consciente ao me ofender, também só apanhou parcialmente. Afinal, restou inteiro, sem nada quebrado, ficou só inchado... — defendeu-se Nilsen, com um dos raros meios sorrisos. Depois, sério, acrescentou: — Desse jeito, logo ficaremos desmoralizados, nos cuspirão na cara. Sempre se inventa uma desculpa para o desacato: não houve dolo, a vítima — o policial — se excedera antes, não cumprira o parágrafo tal, item tal do artigo tal, etc.
Nilsen tinha idéias bem originais — talvez indigeríveis, por excessivamente verdadeiras —, sobre a criminalidade. Queria baixar a responsabilidade penal para os quinze ou dezesseis anos. Comentava: — Outro dia prendi um assaltante de supermercados de dezessete anos, taludo, pescoço grosso, membro importante da quadrilha, tendo vá-rias amantes. Logo iria ser pai, pelo tamanho da barriga de uma das amiguinhas. E já matara alguns. Preso, tivemos que remetê-lo para o “S.O.S. Criança”. Pode?

Era ferrenho defensor da pena de morte, tendo em vista seu efeito intimidativo, quando aplicada a sério, sem muita demora, como na China Comunista. — Se desprezado — argumentava — o efeito intimidativo, restaria a conseqüência, nada negligenciável, da pura e simples justiça retributiva: se você se concedeu o direito de suprimir a vida de outrem, nada mais justo que o Estado, desde que dando-lhe todo o direito de se defender no processo — direito que você negou à sua vítima — suprima a sua. Ainda mais com um método muito mais suave, uma simples injeção letal — bem melhor que as dolorosas punhaladas, cacetadas ou tiros que você se permitiu, pelos motivos mais torpes ou frívolos.

Quando da nossa última conversa, já havia ocorrido o assassinato do primeiro-ministro israelense Yitzak Rabin, baleado pelas costas por um rapaz também judeu. Vendo, no jornal, a fisionomia sorridente do moço assassino, Nilsen comentou:

— Ele está assim alegrão, seguro, heróico, porque sabe — principalmente sabia, antes do crime — que em Israel não há pena de morte. A pena máxima é a prisão perpétua. “Perpétua” só no nome porque, em toda parte, tais penas acabam se avacalhando. Depois de alguns anos, já abrandada a lembrança do crime, a “perpétua “transforma-se em alguns anos de prisão; principalmente quando a motivação foi política. Além disso, existe a possibilidade de fuga da cadeia, o que certamente ocorrerá, você vai ver. — Lembrando-me, neste momento, de suas palavras, concluo que, quando desse diálogo, Nilsen não pensava em se matar.

Ele argumentava também que a má-vontade contra a pena de morte advém das imagens, vistas em cinemas, de pessoas sendo executadas na cadeira elétrica. Dizia: — De fato, a imagem do condenado indefeso, amarrado, olhos vendados por uma faixa de couro para que os olhos não saiam das órbitas, tremendo em convulsões, babando, a luz da sala das testemunhas tremeluzindo com a diminuição da corrente elétrica, o presumível cheirinho do churrasco, é algo que impressiona. Todavia, se juntamente com a mesma cena fosse apresentada, pouco antes, uma outra, uma simulação do crime cometido pelo réu, por exemplo, estuprando uma criança e a estrangulando em seguida; ou matando uma velha a cacetadas, punhaladas ou marteladas para roubar o seu parco dinheiro; ou cena equivalente, pode você estar certo que ninguém teria pena do réu quando o visse fritando na cadeira elétrica. Pediriam que fosse enforcado, em seguida eletrocutado e depois decapitado. A cena da velha apavorada, ensangüentada, neutralizaria a reação provocada pela imagem da morte do condenado. E quando, então, o sujeito matou muitas pessoas, como nos casos dos serial killers?

Contou-me que, no tempo da ditadura militar, era comum o bandido chegar aflito a uma delegacia de polícia, implorando, por caridade, para ser preso, tal era o medo de morrer por métodos não-convencionais de combate à criminalidade.

Mas não era a favor da ditadura, argumentando que se esta, por um lado, intimida e inibe mais o bandido comum, por outro lado tem a desvantagem de suprimir o medo do castigo naqueles que trabalham no ou para o governo, o que também, a seu ver, não é bom, porque estimula o abuso. — Um pouco de medo deve estar em todo nós — concluía.

Tinha como certo que a única utilidade das leis penais é incutir o medo: — Para nada mais serve a punição, pois não dá para “desfazer” o crime, “desestuprar” ou ressuscitar o assassinado. Fazia uma pausa e prosseguia: — Para tudo utiliza-se o medo: multas de trânsito, multas para forçar as pessoas a pagar impostos, multa no aluguel, no condomínio. Todo contrato, cível ou comercial, é uma coletânea de pequenas ameaças. Assim, que estória é essa de que a única finalidade da pena criminal é a recuperação?! Por acaso, todas as cláusulas penais, nos contratos cíveis, visam a “recuperação” da outra parte contratante? Se fosse assim, no crime, quando a polícia chegasse para prender o criminoso e o encontrasse chorando, arrependido — como às vezes ocorre — não deveria haver pena alguma, desde que o criminoso tivesse emprego, trabalhasse, fosse um cidadão útil. Se os peritos psicólogos e as testemunhas comprovassem o arrependimento sincero seria ilógico impor qualquer cadeia porque o réu já estaria “recuperado”. Não! A única utilidade do Direito Penal é, incutindo medo, forçar as pessoas a se absterem de atos anti-sociais. Cometido o crime, o criminoso tem de “sofreeer! “— e carregava na palavra, cerrando o punho — mesmo, sofrimento que mostre aos demais e a ele mesmo que cometer crimes é coisa perigosa, traz dor, machuca o seu autor. É só pelo sofrimento que o criminoso se “recupera”, quando recupera, isto é, quando passa a evitar o crime tão-somente porque este não vale a pena. A mente humana funciona como um puro jogo contábil, calculando vantagens e desvantagens. Em suma, o bandido, ou candidato a bandido, ou o pilantra estelionatário, deveria ter um medo desgraçado da polícia e da Justiça, o que não ocorre quando há muita benevolência, como existe agora. Aliás, o mundo ocidental praticamente perdeu a guerra contra o crime. Não é questão de sadismo, é questão de dar alguma utilidade a todo um grande e caro mecanismo de repressão à criminalidade.

Quando ocorreu uma grande fuga de presos de uma penitenciária e alguns policiais, do alto do muro, atiraram nos fugitivos — o que ensejou uma grande reação da imprensa, com sindicâncias e, parece, processos contra os guardas que atiraram — Nilsen apenas observou, ironizando, coisa que pouco fazia: — Não sabia que os guardas estavam nos muros apenas para revidar ataques aéreos... Se não podiam usar as os rifles, porque não armá-los apenas com apitos e cuícas? Daria uma boa escola de carnaval. Os presos fugindo, requebrando em passos de frevo, enquanto os guardas apitavam lá de cima, marcando o ritmo.

Poderia continuar, por longo tempo, resumindo a filosofia do falecido delegado. Daria um livro. Suponho, no entanto, que o leitor não está interessado em filosofia penal. O que realmente o interessa é saber por que, afinal, Nilsen se matou.

Antes do tiro fatal, ele deixou uma carta datilografada, dizendo que estava “cansado de tudo: do mundo, da função policial, sempre perseguida, dos juristas da área penal — que apenas pretendem ganhar dinheiro escrevendo livros inteligentes, mas inócuos, porque não consertam a lei; livros que ninguém lê, mas compra, é o que interessa —, cansado das pessoas, da deslealdade até dos mais próximos e de mim mesmo... Não deixo semente na Terra, e isto é bom...”

Nilsen tinha mulher e uma filha. Na minha opinião, não amava nenhuma das duas. Se traía a mulher, não sei; mas que estória é essa de que “não deixou semente”? Não tinha uma filha, já mocinha? Esta sempre lhe parecera uma estranha. Tinha uma “cisma” com ela. Duas vezes me deu a entender isso, como que desabafando, num momento em que tinha bebido cerveja demais. Nessa ocasião, disse, com a voz meio engrolada, que iria fazer um exame de esperma para ver se era estéril. E sabendo que eu andava estudando muito o tema do reconhecimento de paternidade, me fez algumas perguntas, muito interessado, sobre as técnicas mais recentes. Se chegou a fazer algum exame, não cheguei a saber. E como o tema era delicadíssimo, gostei quando ele mudou de assunto.

Seu casamento foi um caso de pura reparação moral. Quase um procedimento de responsabilidade civil. Pagamento de um dano mediante casamento. E estivesse a cirurgia plástica mais adiantada, na época, possivelmente teria tido uma razão a menos para se matar. Afinal, nem sempre a pessoa se mata por uma razão isolada.

Como? — perguntará o leitor, meio tonto com a súbita mudança de rumo nesta narrativa. — Que estória é essa de “responsabilidade civil” e “cirurgia plástica”? O autor estará delirando?

Pode ser, mas não agora. Explico: Nilsen namorou sua esposa durante quase dois anos. Já estavam noivos. Chegou, porém, um momento em que sentiu que não gostava dela o suficiente para casar. Ou, em linguagem mais romântica, não a amava — e não vamos nos alongar aqui em análises porque o leitor, e mais ainda a leitora, sabem desses assuntos profundos melhor do que eu.

Como dizer, porém, a uma moça delicada, tímida, que parece nos ver como o único homem sobre a Terra, que o noivado tem de terminar por ali? Nilsen planejou externar sua decisão num fim de semana, no domingo à noite, em Pernambuco, onde morava a mãe da noiva. Esta ficaria com a mãe cerca de um mês, após essa viagem àquele Estado. Nesse espaço de tempo, teria oportunidade para uma reflexão e aceitação da decisão do Nilsen. Teria o amparo da mãe.

Nesse sábado, pela manhã, por sugestão de um primo dele, participou de um passeio de jangada. O primo trouxe de sua casa os apetrechos de caça submarina.

Estavam na jangada o Nilsen, a noiva, esse primo e o dono da embarcação rudimentar.

Em alto mar, Nilsen mergulhou para a caça. O primo também.
A noiva do Nilsen foi advertida para não sair da jangada em hipótese alguma, conselho que ela cumpriu na primeira meia hora. Depois, entretanto, cansada de ficar ali, sem fazer nada — não dava para simplesmente ficar deitada na jangada, tomando sol, porque uns cinco centímetros de água cobriam os troncos constantemente — desobedeceu parcialmente a ordem. Ajustou os óculos de mergulho e enfiou a cabeça, apenas a cabeça, dentro da água, na esperança de ver o noivo caçando lá no fundo.

A fatalidade fez resto. Por falha no arpão ou inabilidade de Nilsen, o arpão disparou acidentalmente para cima, atingindo a noiva na boca. Como felizmente estava de boca fechada, a ponta do arpão apenas arrebentou seus dentes incisivos e seu lábio inferior, cravando-se no céu da boca. Estivesse ela de boca aberta, teria morrido, porque nenhum obstáculo amorteceria a força do arpão.

A hemorragia foi impressionante. O jangadeiro tratou de chamar logo o Nilsen, que, preocupado com o disparo acidental, voltava à tona.
Tudo se fez para diminuir, com pressão de panos, a hemorragia enquanto o jangadeiro se esforçava para voltar à praia o mais rápido possível.

A noiva do Nilsen foi cuidada na Santa Casa local e alguns meses depois fez uma operação plástica que lhe permitiu usar uma ponte, de forma a disfarçar a perda dos dentes. Todavia, quanto ao dilaceramento do lábio inferior, a plástica não ficou muito boa. Sua boca não ficou nada bonita, principalmente quando sorria, o que a obrigava a cobrir os lábios com a mão.

O que fez o Nilson, como rapaz decente e responsável que era? 

Simplesmente cancelou na hora seu projeto de terminar o noivado. Menos de um ano depois, após passar no concurso de delegado, casou. E a filha nasceu sete meses depois de seu casamento.

Tenho minhas suspeitas de que o suicídio do Nilsen tenha mais relação com seu problema conjugal, ou “paternal”, do que com as frustrações relacionadas com a carreira policial. Teria ele, após a pequena deformidade que causou na boca da noiva, passado a amá-la? Por mais que Nilsen fosse diferente do resto da humanidade, difícil acreditar. E que estória é essa de que “não deixou semente”? Chegou a fazer o exame de investigação de paternidade? Descobriu, eventualmente, que era estéril? Concluiu, talvez — estarei sendo malévolo? —, que tanto sacrifício, tanta reparação, fora empregada na pessoa errada?

Esse mistério, guardou-o para sempre.

Para mim, o mundo perdeu um desconhecido grande homem.

Nilsen deveria ter sido militar. De preferência em tempo de guerra. Chegaria a marechal. Nenhum “jogo de cintura”, como se diz. Justamente por isso, reconheço aqui, por escrito, sua superioridade.

Num mundo povoado de trêfegos reboladores, sempre atentos à direção dos ventos, é um conforto encontrar uma forte personalidade. Nilsen acreditava em enfrentar o mal. Se exagerou, cabe a cada leitor avaliar.

Pelo jeito, morreu frustrado. Mas se existe uma sobrevida — pouco provável, mas perfeitamente recomendável, exigência de justiça — espero que nosso guerreiro, lá de cima, numa pausa entre santas lutas ferozes, travadas sobre colchões de nuvens, coloque seus binóculos especiais de leitura e sinta algum conforto lendo estas páginas que o colocam na minha galeria de heróis anônimos.

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