A volta do Estado-Nação / Marcos Troyjo

08/11/2011

O imbroglio envolvendo a Grécia, bem como as demais economias européias em crise por suas dívidas soberanas, está a ensinar-nos uma lição bem clara em termos de cenário global. Ao contrário do que se supunha, é o Estado-Nação, e não instituições multilaterais, acordos regionais ou filiações civilizacionais, que está dando as cartas no redesenho da política mundial contemporânea. 
Afinal de contas, nestes nossos dias as pessoas ainda definem suas visões de mundo em grande medida pelas realidades nacionais em que se inserem. Do passaporte à seleção de futebol, são muitos os símbolos e instrumentos da expressão nacional. Daí o primeiro-ministro Papandreou ter repetidamente argumentado que ele gostaria de fazer “o que é melhor para a Grécia, e não para a União Européia ou a economia global”.

Recentemente,  o Estado-Nação, como figura dominante das relações internacionais, passou por 3 questionamentos. 

Muitos acreditaram que o “Fim da História” concebido por Francis Fukuyama levaria ao progressivo desaparecimento das soberanias nacionais em nome da ONU e outras instituições multilaterais. Outros, como Samuel Huntington, acreditavam que os estados nacionais eram menos importantes que as “civilizações” (islâmica, ocidental, etc.) na definição dos potenciais de cooperação e conflito. O aparente sucesso da União Européia nos anos 90 também fazia pensar que todo o mundo estava rumando para alguma forma de acordo regional, e daí tanta ênfase a temas como Mercosul, Nafta, Alca  ASEAN, etc.

Todas as reuniões de bastidores do G-20 em Cannes, na semana passada, foram marcadas por uma espécie de "intercâmbio de recriminações", sobretudo dentre os membros da União Européia. Ou seja, um Estado-Nação criticando outro Estado-Nação.  A propósito, EUA e Europa utilizaram a oportunidade para pedir que as economias emergentes, os BRICS em particular – e em especial a China –  participassem mais ativamente do redesenho da arquitetura financeira internacional.  Menor ênfase foi dada a atores como o FMI  ou o Banco Mundial.

É bom ressaltar que o G-20 ou os BRICS são fóruns de consultas e coordenação, e não uma organização multilateral cujas decisões têm força compulsória. Assim, o problema com qualquer arranjo multinacional é que ele se contra em meio ao individualismo de cada país em velar por seus próprios interesses (daí acusações do tipo que os EUA estão exportando sua crise, ou que a moeda chinesa está demasiado subvalorizada, ou que o Brasil é protecionista demais, etc.) e as necessidades de cooperação para a solução problemas que muito superam em escala a capacidade individual de cada país.

Caso a comunidade internacional realmente deseje criar uma estrutura eficiente de governança econômica global, seria necessário fundir FMI, Banco Mundial, OMC e G-20 num novo e poderoso instrumento que reflita as realidades de poder e desafios do século 21. No entanto, ainda estamos a anos-luz de um mecanismo desse tipo. Durante muito tempo ainda, o Estadao-Nação será o ator preponderante dos fluxos mundiais de riqueza e poder.

Marcos Troyjo é professor do IBMEC e pesquisador da Universidade Paris V-Sorbonne

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