Acidente do trabalho

08/02/2010

O jovem juiz, idealista, pouco mais de trinta anos, sente-se desconfortável relendo a sentença que acabou de datilografar. Voltou até mesmo a roer as unhas, um hábito que se forçava a abandonar, com pouco sucesso. Não era bonito ver um magistrado ansioso, com os sabugos na boca, parecendo um roedor ilustrado. Dava uma impressão de insegurança. Sem mencionar aqui a utilidade das lâminas córneas que, embora herança do primitivo mundo animal — para cavar o solo ou agarrar a presa — eram ainda bem úteis. Talvez porque ainda sejamos em boa parte animais, embora mirando outras presas, agarráveis com instrumentos mais refinados. Era-lhe impossível retirar um grampo de papéis sem auxílio de algum objeto de ponta. Quando menino, para combater o vício, chegara a pensar em sujar as extremidades dos dedos com bosta de galinha. Única fórmula válida, na opinião da velha e sábia empregada da casa.


Quatro unhas tinham sido devoradas — embora não engolidas, por medo da apendicite — no julgamento de três processos de acidente do trabalho só naquela manhã. Estava sozinho no apartamento, trabalhando desde cedo, enquanto sua mulher dava aulas numa escola próxima.

O juiz estava trabalhando na Vara de Acidentes do Trabalho há pouco mais de um mês e tinha fortes dúvidas quanto à seriedade dos laudos periciais que quase sempre, para não dizer sempre, apresentavam um nexo causal entre o trabalho do obreiro e um dos males da coluna, a espondiloartrose. Operários de trinta e poucos anos se queixavam nos processos judiciais de dores lombares incapacitantes, requerendo, aposentadoria ou outro benefício previdenciário.

Todavia, mesmo raramente convencido da relação de causa e efeito, o jovem juiz sentia-se obrigado a julgar as ações em favor do operário porque, na dúvida — diziam a doutrina e a jurisprudência —, a solução judicial teria que ser favorável ao trabalhador. Como rejeitar a conclusão do laudo feito por um médico, se ele mesmo, juiz, não tinha examinado o operário, nem era um especialista da área médica?

Redigida a última sentença, fez a barba e decidiu tomar um banho. Mas mal acabou de se ensaboar, ocorreu uma interrupção no fornecimento de energia elétrica, tendo de terminar o banho com uma água que parecia canalizada diretamente das geleiras dos Andes.

Atrasado na sua rotina, almoçou depressa um resto de macarronada com lingüiça calabresa que sua mulher deixara na geladeira. Como o forno de microondas não funcionava, teria de esquentar a comida no fogão. Fez isso, apressado, mas, pela sensação de desconforto que sentiu ao comer, concluiu que deveria ter deixado a panela muito mais tempo no fogo. E, para arrematar aquela manhã maravilhosa, ao terminar a refeição, percebeu que sua camisa branca estava com uns respingos bem visíveis do molho de tomate. Era um daqueles dias em que tudo corre às mil maravilhas.
Trocou de camisa e saiu de casa quarenta minutos depois da hora habitual. Como seu carro estava na conserto — sua mulher, não obstante virtuosa, conhecia todos os funileiros das vizinhanças — viu-se obrigado a pegar um táxi.

Embora fosse um homem de tendências democráticas, sentou-se no banco traseiro para eventualmente reler a última sentença que proferira. Mas logo pensou que aquilo seria má idéia porque sempre
encontraria algum errinho no próprio trabalho, perfeitamente desculpável em escrito que não seria publicado em parte alguma. Naquela Vara, o que interessava era a quantidade porque os processos chegavam em grandes vagas. Assim, desistiu da leitura e resolveu conversar com o motorista, um homem de seus trinta e oito anos, mais ou menos, de fisionomia simpática.
Como o motorista tinha o cabelo aparado bem curto, à maneira dos militares, o juiz deduziu que era um policial militar o qual, para reforçar o orçamento doméstico, fazia “bico”, trabalhando como taxista nas horas de folga. E sobre isto indagou o motorista.

— Não, doutor, não sou militar — ele nunca tinha visto aquele freguês, mas sua política era tratar como “doutor” todo homem de paletó e gravata. O resultado às vezes se refletia na gorjeta. — Estou aposentado há dois anos.

— Já aposentado? Que idade o senhor tem?

— Que idade o senhor me dá?

— Menos de quarenta.

— Acertou! Trinta e oito... Mas estou em boa forma. Jogo meu futebolzinho nos fins de semana... e não desprezo as garotas, se posso tomar essa liberdade com o senhor. Afinal, o que é que se leva dessa vida?
O juiz pensou um pouco antes de prosseguir. Teria o taxista alguma doença grave, a ponto de ficar incapacitado tão jovem? Seria alguma moléstia incurável e transmissível? Resolveu perguntar, com um tom de voz desinteressado:

— O senhor sofreu algum acidente grave ou algo assim?

O taxista deu uma risada: — Foi o “algo assim”! — brincou. — Nem por sombra, doutor! Apenas fui esperto, como me ensinou o meu pai. O negócio foi o seguinte: Eu trabalhei muitos anos na... ... ... — e mencionou uma importante linha de ônibus interestadual. — Quase dez anos! Gostava do serviço. Sempre fui bom no que faço. Lidava com gente fina, bem educada e tinha sorte com aquela parte do mulherio solto que costumava sentar bem atrás de mim. Ocorre que é política da empresa transferir os motoristas para uma linha secundária após vários anos de trabalho. Aí, fica ruim porque você passa a transportar a caipirada, entre cidades do interior.

— O que há de errado com os caipiras?

O taxista fez uma meia careta, erguendo os ombros: — Não é por nada, doutor, ninguém é melhor que ninguém, mas não é fácil agüentar aquele pessoal suado, ignorante, mal ajambrado, carregando um monte de cestas e frangos vivos. Até leitõezinhos aterrorizados, que se põem a guinchar de uma hora para outra. É uma gente, coitada, pouco sofisticada e que irritava meus nervos. Basta dizer que um dia um senhor, sentado logo atrás de mim, resolveu tirar os sapatos... Que barbaridade! Nem te conto!... Se o senhor soubesse o cheiro que invadiu o ônibus! Como chama aquele queijo fedido, caro, que tem uns riscos verdes?

— Gorgonzola?

— Esse aí!... Multiplicado por dez, vinte... Não agüentei mais de dez minutos. Parei o ônibus no acostamento, me virei pro pessoal e disse que, ou todos punham de volta os sapatos, ou eu não prosseguiria na viagem. E desci do ônibus para respirar. Naquele momento, eu não sabia ainda quem é que empesteava o ônibus. Para o senhor pode parecer exagero, mas se eu não ameaçasse não teria agüentado. Na parada seguinte, fiquei sabendo que “o bandido” era o homem atrás de mim. A vizinha dele me informou, muito agradecida. Ela também já não agüentava. Como o senhor vê, assim não dava para trabalhar.

O que eu fiz, então? Procurei um advogado trabalhista. Achei uma sacanagem baixar assim de status, sem ter culpa nenhuma porque sempre fui um bom funcionário. Nessas linhas secundárias até o mulherio era ruim! Garota da roça, o senhor sabe, não tem aquela desenvoltura. das moças da cidade.
O juiz estava mais do que curioso: — E o que o seu advogado disse?
— Ele me explicou que não podia fazer nada quanto à transferência para outra linha. Não havendo diminuição de salário, o patrão pode mandar o motorista trabalhar onde for melhor para a empresa. Mas ele me perguntou se eu não queria coisa melhor: me aposentar. — Aposentar como? — perguntei. E não é que o danado conseguiu?! Assim, cavei minha aposentadoria, que não é muita, mas juntando com o que ganho no táxi, dá para viver muito bem. Estou aposentado por invalidez, mas só de mentirinha porque tenho uma saúde de ferro.

— Parabéns... mas me explica como é que ele conseguiu isso?

— Muito simples. Ele me disse que, um dia qualquer, estando o ônibus no ponto de partida, quando uma mulher quisesse erguer alguma mala ou sacola para colocar no bagageiro, eu deveria fazer isso para ela. Aí, eu fingiria que tinha tido uma súbita dor nas costas. Disse-me para fazer um bruta escândalo, como se minha espinha tivesse sofrido um trauma violento. Acho “trauma” uma palavra bacana.

— Obedeci direitinho. Fiquei de prontidão — prosseguiu o taxista, dando uma curta buzinada de alerta ao motorista da frente —, esperando uma oportunidade para fazer a minha cena. E uma semana depois, quando uma velhota gorda me pediu para erguer uma sacolona pesada, dei o máximo de mim e virei artista de teatro... — O motorista pareceu hesitar um momento e indagou: — Desculpe, mas o senhor trabalha em quê?

— Sou advogado, criminalista...

— Ah, perguntei porque nunca se sabe...

— Pode falar sem medo, não sou fiscal da Previdência. Como é que foi esse negócio de virar artista? Você se expressa bem. É agradável ouvi-lo.

— Eu me ofereci para erguer a sacola e, quando ela estava acima de minha cabeça eu dei um berro. Soltei um gemido e caí com sacola e tudo, como se tivesse sido fulminado. Para dar maior realismo à cena, levei pro chão comigo a senhora gorda. Embolamos os três, eu, a mulher e a sacolona no corredor do ônibus. Hoje, quando me lembro, tenho até vontade de dar risada.

— E daí?

— Daí que fui carregado até o pronto-socorro da empresa, onde escreveram umas coisas no papel. O encarregado estava meio na dúvida, mas como ele poderia garantir que eu não estava sofrendo de verdade? Algum tempo depois, eu fui examinado por um perito e aí veio o segundo ato do teatro. Toda vez que o perito erguia a minha perna, eu, deitado, gemia e fazia careta porque assim tinha instruído meu advogado. E gemia também quando o perito me comprimia
certas partes da coluna. Meu advogado era um mestre na matéria. Sabia tudinho o que o perito ia fazer. Meu papel era só gemer no momento certo... Caramba, como tá ruim esse trânsito!

— Enfim — resumiu o juiz —, acabou se aposentando por causa da coluna...

— Isso. O advogado foi muito legal comigo. Não tive que desembolsar um tostão. Ele ficou só com os atrasados, nem sei quanto era.
O juiz também foi legal, homem educado, me tratou bem quando prestei depoimento. Não era um cara desconfiado... Quando deu a sentença, baseou-se no laudo pericial. E aqui estou, irmão. Só que esse Governo não presta porque o poder aquisitivo da minha aposentadoria está cada vez mais baixo. Também, o que tem de corrupto no governo! Esses políticos só querem ser eleitos para encher os bolsos!... O Brasil não tem saída... Estamos chegando... Aqui tá bom pro senhor?

— Está... — O juiz pagou a corrida e, abrindo a porta para sair, fez uma pausa, observando: — O senhor nem imagina quanto sua conversa foi instrutiva... Já não vou ficar angustiado. Minhas unhas, doravante, ficarão maiores. E até pode ser que mude de Vara. — Dizendo isso, afastou-se.
O taxista não entendeu absolutamente nada. Que importância tinha o tamanho das unhas dele? Este mundo, pensou, está cheio de gente pancada.
O que era estranho é que, durante a corrida, o passageiro parecia uma pessoa normal, coerente. Pelo visto, a loucura é uma caixa de mistérios. Aquelas perguntas todas, será que não eram para o engravatado requerer a própria aposentadoria por loucura?

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